Protesto em Brasília cobra retirada da Serrinha do projeto de socorro ao BRB

Manifestantes voltaram às ruas neste domingo (15), em Brasília, para pedir que área ambiental da Serrinha do Paranoá seja retirada do projeto que prevê uso de imóveis públicos para socorrer o BRB.

Ambientalistas, acadêmicos e integrantes de entidades civis realizaram neste domingo (15), em Brasília, um protesto em defesa da Serrinha do Paranoá. O grupo pede que a área ambiental seja retirada do projeto aprovado pelo governo do Distrito Federal que autoriza o uso de imóveis públicos como garantia para empréstimos destinados a reforçar o caixa do Banco de Brasília (BRB).

A manifestação ocorreu no Eixo Rodoviário Sul, tradicionalmente fechado aos domingos para atividades de lazer. Durante o ato, os participantes destacaram a importância ecológica da Serrinha do Paranoá, considerada uma área estratégica para o equilíbrio ambiental, hídrico e climático do Distrito Federal.

Localizada entre as regiões administrativas do Varjão e do Paranoá, a área abriga uma extensa faixa de cerrado nativo. Segundo o próprio governo distrital, o local possui zonas ambientalmente sensíveis, incluindo áreas de recarga hídrica e escarpas com grande concentração de nascentes.

Estudos apontam que a região abriga ao menos 119 minas d’água que contribuem para alimentar o Lago Paranoá, um dos principais mananciais utilizados no abastecimento da população.

Mesmo com o reconhecimento da importância ambiental, a Câmara Legislativa aprovou e o governador Ibaneis Rocha sancionou uma lei que permite ao governo contrair até R$ 6,6 bilhões em empréstimos emergenciais para apoiar o BRB. Como garantia, podem ser utilizados até nove imóveis públicos.

Entre os bens incluídos está a chamada Gleba A, uma área pública de 716 hectares localizada na Serrinha do Paranoá, avaliada em cerca de R$ 2,2 bilhões.

O socorro financeiro ocorre em meio a uma crise de confiança enfrentada pelo banco estatal, relacionada a prejuízos decorrentes da aquisição de carteiras de crédito e ativos de baixa liquidez vinculados ao Banco Master. A Polícia Federal investiga suspeitas de fraude envolvendo cerca de R$ 12,2 bilhões em créditos adquiridos da instituição.

Preocupação com as nascentes

Para os manifestantes, a possível urbanização da área representa um risco para o sistema hídrico local. A presidente da Associação Preserva Serrinha, Lúcia Mendes, afirma que a região funciona como uma área de recarga que alimenta o lençol freático.

Segundo ela, um levantamento realizado em 2015 identificou diversas nascentes e indicou que a região não é adequada para a implantação de condomínios. A ativista também destacou que moradores defendem a regularização de propriedades rurais existentes há décadas no local.

“Essa área funciona como uma caixa d’água natural. Ela recebe a água da chuva, armazena no lençol freático e depois alimenta as nascentes”, afirmou.

Representantes de organizações ambientais também manifestaram apoio à preservação da área. O engenheiro florestal César Victor do Espírito Santo, integrante do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e da Fundação Pró-Natureza (Funatura), destacou que o colegiado aprovou uma moção em defesa da Serrinha.

De acordo com ele, a área tem relevância para a recarga de aquíferos e para a conservação da biodiversidade, possuindo valor ambiental e social superior ao potencial econômico associado à exploração imobiliária.

Custo ambiental

Especialistas também alertam para os possíveis impactos ambientais da medida. O ecólogo Paulo Moutinho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), afirmou que a iniciativa pode transferir à população o custo ambiental de uma decisão voltada a resolver dificuldades financeiras do banco.

Segundo o pesquisador, a preservação de áreas de nascentes torna-se ainda mais importante diante da redução de chuvas observada em biomas como o Cerrado e a Amazônia. Para ele, a ocupação imobiliária poderia comprometer a sobrevivência dessas fontes de água.

Posição do governo

O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, contestou parte das críticas e afirmou na sexta-feira (13) que a área específica incluída no projeto não abriga nascentes.

De acordo com ele, o terreno pertenceu à Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap) e não possui fontes de água dentro de seus limites. O governador também declarou que o governo tem prestado todas as informações necessárias aos órgãos de fiscalização e defendeu que sua gestão tem priorizado ações de proteção ambiental.

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