Coronel que rompeu com Bolsonaro aciona STF e expõe sobrevivência do conflito interno do bolsonarismo

Denúncia contra Filipe Martins vai além de um suposto acesso ao LinkedIn e revela como disputas políticas migraram para dentro das instituições

A comunicação enviada pelo coronel da reserva Ricardo Wagner Roquetti ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), não é apenas um episódio isolado envolvendo redes sociais. O gesto revela como as disputas internas do bolsonarismo continuam ativas, mesmo após a saída do grupo do poder, e como o sistema de Justiça passou a ser usado como arena direta dessas tensões.

Ex-diretor do Ministério da Educação (MEC) no início do governo Jair Bolsonaro, Roquetti notificou o STF alegando que Filipe Martins, ex-assessor especial da Presidência e figura central do núcleo ideológico ligado ao filósofo Olavo de Carvalho, teria acessado seu perfil no LinkedIn no dia 28 de dezembro. À época, Martins cumpria prisão domiciliar e estava proibido de utilizar redes sociais por decisão judicial.

Mais do que a veracidade ou não do suposto acesso, o episódio chama atenção pela forma como foi conduzido. Roquetti optou por enviar um e-mail diretamente ao gabinete de Alexandre de Moraes, sem intermediação aparente de advogados ou de uma petição formal tradicional. O ato sinaliza uma mudança de comportamento: antigos aliados agora se vigiam e recorrem ao Judiciário como instrumento imediato de enfrentamento político.

O caso ilustra a transformação do STF em um espaço cotidiano de resolução de conflitos que extrapolam grandes temas constitucionais e passam a envolver disputas pessoais com forte carga simbólica. Um possível clique em um perfil profissional torna-se matéria para a Corte máxima do país, evidenciando tanto o grau de tensão quanto a banalização do recurso às instituições.

Filipe Martins surge novamente como personagem central desse embate prolongado. Mesmo afastado da vida pública e submetido a restrições judiciais, sua figura continua funcionando como símbolo de um projeto político derrotado, mas ainda alvo de vigilância, ressentimento e tentativa de neutralização por antigos aliados e adversários.

O episódio também expõe um ambiente marcado pela desconfiança permanente. A denúncia antecede a comprovação técnica. Primeiro acusa-se, depois se apura. Essa lógica reflete um cenário político em que a paranoia substituiu o debate e em que a institucionalidade é acionada como arma, não como último recurso.

No fim, a notificação de Roquetti ao STF diz menos sobre o uso de redes sociais e mais sobre um país que ainda não conseguiu encerrar o ciclo de conflitos inaugurado nos últimos anos. Um país em que as batalhas políticas deixaram as ruas, mas continuam sendo travadas nos gabinetes, nos e-mails e nos corredores do poder.

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