Crédito rural continua insuficiente para produtores de Mato Grosso, afirma Famato

Federação reconhece redução dos juros e reforço nas linhas de investimento, mas afirma que produtores ainda enfrentam dificuldades para acessar recursos oficiais e cobram mudanças estruturais na política agrícola.

A avaliação da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) sobre o Plano Safra 2026/2027 reúne dois cenários distintos. De um lado, a entidade reconhece que o governo federal reduziu as taxas de juros do crédito de custeio e ampliou os recursos destinados ao financiamento da produção agropecuária. De outro, considera que as medidas ainda não acompanham a realidade enfrentada pelos produtores rurais, especialmente em estados de forte vocação agrícola como Mato Grosso.

O novo Plano Safra destinado à agricultura empresarial disponibiliza R$ 525,1 bilhões em crédito, crescimento de 1,7% em relação ao ciclo anterior. Para a Famato, entretanto, esse aumento não recompõe sequer a inflação acumulada no período e permanece abaixo da demanda do setor produtivo, que convive com custos elevados, margens mais apertadas e maior necessidade de capital para financiar as atividades no campo.

Segundo o superintendente da entidade, Cleiton Gauer, houve evolução em relação ao volume de recursos anunciado, mas ainda distante da necessidade de uma agropecuária que continua expandindo produção e produtividade em todo o país.

Famato afirma que crédito oficial ainda alcança poucos produtores

Uma das principais preocupações da federação está no acesso efetivo às linhas oficiais de financiamento.

Dados apresentados pela entidade mostram que, durante a última safra de soja em Mato Grosso, pouco mais de 4% dos produtores conseguiram utilizar recursos do Plano Safra para custeio da produção.

Na avaliação da Famato, esse percentual reduzido está relacionado principalmente aos critérios atuais de enquadramento dos programas de financiamento, considerados defasados diante da evolução da agricultura brasileira.

Muitos produtores que antes eram classificados como pequenos ou médios deixaram de atender às regras existentes, mesmo sem terem registrado crescimento proporcional em sua capacidade financeira.

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Redução dos juros foi considerada positiva, mas insuficiente

Entre os pontos destacados positivamente está a redução da taxa de juros para operações de custeio, que passou de 14% para 12,5% ao ano.

Segundo a Famato, a medida pode contribuir para o planejamento da próxima safra, porém ainda não resolve os desafios financeiros acumulados pelos produtores após sucessivas temporadas marcadas pelo aumento dos custos de produção, renegociação de dívidas e redução das margens de rentabilidade.

A entidade avalia que boa parte do setor chega ao novo ciclo agrícola ainda pressionada pelos compromissos assumidos nos últimos anos.

Seguro rural continua entre as principais reivindicações

Outro tema considerado prioritário pela Famato é o fortalecimento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR).

A entidade defendia a ampliação dos recursos destinados ao programa para R$ 3 bilhões, entendendo que o seguro rural se tornou um instrumento indispensável diante da maior frequência de eventos climáticos extremos registrados nas últimas safras.

Para a federação, proteger a produção significa também preservar a renda do produtor e garantir estabilidade ao abastecimento nacional.

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Cadastro Ambiental Rural preocupa produtores mato-grossenses

A Famato também demonstrou preocupação com a vinculação de benefícios financeiros previstos no Plano Safra à validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR).

Segundo a entidade, muitos produtores cumprem todas as exigências legais, mas continuam aguardando a análise dos cadastros pelos órgãos responsáveis.

Na prática, isso pode limitar o acesso a determinadas linhas de financiamento por fatores que independem da atuação do próprio produtor rural.

O tema é considerado especialmente sensível em Mato Grosso, estado que possui grande número de propriedades ainda em processo de validação cadastral.

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Investimentos em armazenagem e irrigação seguem como prioridade

Apesar do reforço anunciado para linhas de investimento, a Famato entende que programas voltados à irrigação, armazenagem e ao RenovAgro ainda apresentam custos financeiros superiores ao considerado adequado pelo setor.

Na avaliação da entidade, esses investimentos são fundamentais para aumentar a resiliência das propriedades, reduzir perdas provocadas por eventos climáticos e ampliar a competitividade da agropecuária brasileira.

O documento encaminhado anteriormente ao Ministério da Agricultura também defendia políticas específicas para regiões como o Pantanal e o Vale do Araguaia, além da atualização dos limites do Pronaf e Pronamp.

Endividamento rural permanece entre os maiores desafios

Mesmo com o anúncio do novo Plano Safra, a Famato avalia que um dos principais problemas do setor continua sem solução definitiva: o elevado nível de endividamento acumulado pelos produtores.

Embora existam discussões em andamento no Congresso Nacional sobre propostas de renegociação das dívidas rurais, a entidade entende que esse tema deveria ter recebido tratamento mais amplo dentro do principal programa de financiamento da agropecuária brasileira.

Segundo a federação, garantir acesso ao crédito passa também pela criação de mecanismos que permitam ao produtor reorganizar sua situação financeira e continuar investindo na produção.

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Famato pretende manter diálogo para aperfeiçoar a política agrícola

A entidade informou que continuará apresentando propostas ao Ministério da Agricultura, ao Congresso Nacional e às instituições ligadas ao setor para aperfeiçoar a política de crédito rural.

Entre as prioridades permanecem a atualização dos critérios de enquadramento dos produtores, a ampliação do seguro rural, a redução da burocracia para contratação de financiamentos, o fortalecimento das linhas de investimento e a construção de soluções permanentes para o endividamento rural.

Na avaliação da Famato, Mato Grosso responde por uma parcela significativa da produção nacional de alimentos e necessita de uma política agrícola compatível com a dimensão de sua atividade econômica. A expectativa do setor é que os próximos ajustes no Plano Safra ampliem o acesso aos recursos oficiais e fortaleçam a capacidade de investimento dos produtores, garantindo maior segurança para o desenvolvimento das cadeias produtivas nos próximos anos.

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