O governo federal lançou nesta terça-feira (30/6) o Plano Safra 2026/2027, apresentado como o maior volume de recursos já ofertado. Ao todo, estão previstos R$ 525,1 bilhões para financiar a produção agropecuária no novo ciclo — valor que não inclui os valores destinados à agricultura familiar, pelo Pronaf. Desse total, R$ 384,9 bilhões são para custeio e comercialização, enquanto R$ 140,2 bilhões serão aplicados em investimentos.
Mas o número geral esconde mudanças que exigem atenção. O crescimento do plano veio apenas pela parte de investimentos; já a verba para o ciclo produtivo principal — custeio e comercialização — teve queda. Na safra anterior, esse montante era de R$ 414,7 bilhões, e agora recuou para R$ 384,9 bilhões, uma redução de R$ 29,8 bilhões.
Valor sobe no papel, mas perde força com a inflação
Comparado ao ciclo 2025/2026, o aumento nominal é de cerca de R$ 9 bilhões, ou 1,7%. No entanto, para manter o mesmo poder de compra, seria necessário um volume de aproximadamente R$ 538,7 bilhões, considerando a inflação acumulada de 4,4% nos últimos 11 meses. Com isso, o plano representa, na prática, uma redução real de cerca de R$ 13,6 bilhões.
Para o presidente da Aprosoja MT, Lucas Costa Beber, esse cenário preocupa especialmente o produtor de Mato Grosso, que já enfrenta um ambiente de crédito mais caro e com regras mais rigorosas.
“Tem R$ 8,9 bilhões a mais no total, mas R$ 29,8 bilhões a menos justamente para plantar, manter a lavoura e vender a produção. Mesmo com juros menores em algumas linhas, há menos recurso disponível no momento que mais importa para quem produz”, explica.
A entidade já havia alertado o Ministério da Agricultura, em março, sobre a necessidade de priorizar o endividamento rural. Segundo a Aprosoja MT, não adianta anunciar valores altos se o produtor tem dificuldade para acessar novos empréstimos ou renegociar dívidas antigas — o que acaba consumindo parte dos recursos liberados, sem gerar investimento novo.
Execução da safra passada mostra queda nas linhas tradicionais
Os dados da safra 2025/2026 confirmam a diferença entre o que é anunciado e o que chega de fato ao campo. De julho de 2025 a maio de 2026, o crédito contratado sem o Pronaf somou R$ 433 bilhões, queda de 5% em relação ao mesmo período anterior.
A redução fica ainda mais clara quando se olha apenas para as linhas tradicionais: passaram de R$ 286,6 bilhões para R$ 247,8 bilhões, uma retração de quase 14%. Em contrapartida, a contratação de CPRs — instrumentos do mercado privado — cresceu 8%, chegando a R$ 185,2 bilhões. Hoje, esse tipo de operação já representa 42,8% do total concedido, contra 37,4% na safra anterior.
Essa mudança significa que o produtor depende cada vez mais de regras do mercado, com custos mais variáveis e exigências maiores de garantias. O recuo também aparece nas linhas de apoio público: os recursos com equalização de juros caíram 47% no período, passando de R$ 91,4 bilhões para R$ 48,9 bilhões.
Na prática, áreas como custeio, investimento e programas de modernização — como Proirriga, Moderfrota e RenovAgro — também registraram redução nos valores efetivamente liberados.
O que esperar para o novo ciclo
Embora o novo Plano Safra valorize mecanismos de proteção, como o Proagro e o seguro rural, a confiança do setor depende de como essas regras vão funcionar no dia a dia.
“Mais importante do que números elevados em comunicado é garantir que o crédito chegue realmente ao produtor. O campo precisa de uma política que atenda à realidade da porteira, que reduza riscos e mantenha a capacidade de produzir”, finaliza a avaliação da entidade.
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