O acúmulo de funções em secretarias consideradas estratégicas ganhou holofotes nesta segunda-feira (06) em Lucas do Rio Verde. Durante a sessão ordinária, o presidente da Câmara Municipal de Lucas do Rio Verde, Airton Callai, fez um alerta direto: a gestão pública não comporta improvisos quando o assunto é tempo, responsabilidade e complexidade administrativa.
Ao iniciar sua fala, Callai reconheceu o trabalho da ex-secretária de Saúde, Fernanda Ventura, destacando os desafios da função. “Não é fácil ser secretário, é 24 horas ligado. Todo mundo liga, todo mundo cobra solução, desde uma vaga de UTI até situações críticas do dia a dia”, afirmou.
Mas foi ao abordar o atual cenário administrativo que o tom subiu. Sem questionar a capacidade técnica do atual gestor, o presidente da Câmara foi enfático ao apontar o problema central: falta de tempo. “Eu não estou falando de capacidade, estou falando de tempo. São duas pastas pesadíssimas, que exigem 100% da pessoa. Saúde não pode ser 50%, planejamento não pode ser 50%”, disse.
Momentos importantes, decisões impactantes
A crítica se concentra na concentração de duas secretarias estratégicas sob um único comando, justamente em um momento considerado decisivo para o município. Entre os desafios citados estão a revisão do plano diretor — que deve nortear o crescimento da cidade pelos próximos 30 anos —, além de demandas estruturais como mobilidade urbana, BR-163, anel viário, ferrovia e expansão urbana.
“Tudo isso demanda tempo e conhecimento. E ao mesmo tempo, a saúde exige presença constante, negociação com hospital, consórcios, gestão de equipes. Não vejo condição de fazer as duas coisas com excelência”, reforçou Callai.
O presidente também chamou atenção para um ponto sensível nos bastidores da gestão pública: a dificuldade de atrair e manter profissionais qualificados para cargos de alto nível. Segundo ele, a remuneração, embora considerada alta por parte da população, não acompanha o grau de responsabilidade exigido.
“Às vezes se fala que ganha R$ 18 mil, mas é uma função de dedicação integral, com orçamento milionário e decisões que impactam milhares de pessoas. Precisamos repensar isso”, pontuou, ao comparar com profissionais da iniciativa privada que conseguem rendimentos superiores com menor nível de exposição e responsabilidade.
Outro aspecto levantado foi a própria dificuldade de reposição no comando da saúde após a saída da titular. “O que me assustou foi isso: não tínhamos alguém para colocar no lugar. Isso reflete em várias coisas, inclusive na atratividade do cargo”, afirmou.
Alerta sobre a centralização de trabalho
Ao longo do pronunciamento, Callai deixou claro que sua fala não se trata de ataque político, mas de um “alerta de quem conhece a máquina pública”. “O amigo fala. O outro torce para dar errado. Eu estou alertando”, disse.
O pano de fundo da discussão revela um dilema recorrente em administrações públicas: a tentativa de enxugar estruturas sem comprometer a eficiência. No entanto, como destacou o presidente, há um limite claro entre economia e sobrecarga — e ultrapassá-lo pode custar caro.
Em um município que já ultrapassa 120 mil usuários cadastrados na rede de saúde, mesmo com população oficial menor, a equação se torna ainda mais delicada. A demanda cresce, a complexidade aumenta e, segundo o Legislativo, a gestão precisa acompanhar esse ritmo.
“Precisamos de secretários 100%. Não tem como tocar duas pastas dessa magnitude com a excelência que a população espera”, concluiu.
A fala acende um debate necessário: até que ponto a concentração de poder e funções contribui para a eficiência — ou, ao contrário, compromete decisões estratégicas em áreas que exigem presença, técnica e, sobretudo, tempo integral.
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