O Centro de Referência de Assistência Social (Cras) do Bairro Alfredo de Castro, em Rondonópolis, vem colhendo resultados expressivos na formação cidadã e no desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes da região. Por meio do Ateliê Livre de Artes — ação integrada ao Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) —, a unidade atende estudantes de 6 a 17 anos, nos turnos matutino e vespertino, utilizando a arte-educação como ferramenta de intervenção social.
O projeto é estruturado sobre duas linguagens principais: as artes plásticas e o teatro. Longe de buscar apenas o deleite estético ou a formação técnica de artistas, as oficinas funcionam como um canal de aproximação psíquica e socioemocional, preparando os usuários para os desafios e obrigações da vida adulta.
As atividades são coordenadas pelo arte-educador Edilson Pereira, que desenvolveu um método pedagógico baseado em regras, rotinas e padrões de comportamento. O profissional defende que estabelecer rituais em sala de aula — que incluem desde momentos lúdicos e aquecimentos até o desenho livre e contornos — gera uma estrutura disciplinante necessária para o amadurecimento dos alunos.
Pereira esclarece que o papel do professor deve ser o de um líder supervisor, desmistificando a ideia de que a imposição de limites afaste os estudantes.
“Ser imperativo não é ser autoritário. O ritual é um processo disciplinante para a vida. Por meio da repetição, as crianças aprendem e são preparadas para as obrigações que terão quando mais velhas. O professor dá diretrizes porque o grupo está sob sua responsabilidade. Isso não tem a ver com imposição, mas com guiar para que os alunos se descubram e se expressem”, pontua o arte-educador.
A coordenadora do Cras Alfredo de Castro, Sueli Bonfim, endossa a metodologia e destaca que o sucesso do projeto depende do equilíbrio na condução dos grupos. De acordo com a gestora, o facilitador consegue dosar afeto e firmeza, reconhecendo que “o aprendiz não deve ser desvinculado da criança”. O foco do SCFV permanece na consolidação de laços familiares e comunitários e na melhora da saúde mental dos assistidos.
Coletividade e o respeito às diferenças
Dentro do espaço criativo, a coletividade e a socialização ganham destaque. O ambiente é planejado para que os participantes exercitem a empatia e compreendam o papel de cada indivíduo dentro do grupo.
Enquanto alguns alunos manifestam maior aptidão para o manuseio de pincéis e composição de tintas na tela, outros se destacam na encenação e na memorização de textos teatrais. Esse arranjo natural impulsiona a autoconfiança e gera um reforço imediato na autoestima dos jovens, que passam a respeitar as características e ritmos individuais de cada colega de turma.
Impacto real: Foco, telas de lado e notas mais altas
Os reflexos das oficinas cruzam as fronteiras do Cras e geram impactos diretos dentro das salas de aula da rede regular de ensino. É o caso de Vitoria Valentina Rodrigues Faustino, de 9 anos, que participa de oficinas de arte desde os 6 anos e há um ano e meio frequenta o Ateliê Livre no Alfredo de Castro.
Sua mãe, Silmara Rodrigues Jesus, relata que a filha sempre teve muita energia acumulada e encontrou nas dinâmicas do Cras o canal ideal para canalizar seu foco.
“Do momento em que a Vitoria começou a fazer as oficinas até hoje, percebi que sua concentração melhorou e, na escola, ela apresentou maior facilidade em aprender. Essas práticas tiram as crianças da ociosidade e das telas do celular, além de estimularem seu progresso”, testemunha a mãe, sugerindo a ampliação do projeto para outras vertentes artísticas.
Entusiasmada com as aulas de artes visuais e a simulação de personagens, a pequena Vitoria Valentina já projeta o futuro de suas falas ensaiadas em casa: “Fico treinando na esperança de que, um dia, vamos apresentar a história para uma plateia assistir”, conclui.
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