Em 7 de abril de 2001, um jovem entrou armado na Escola Municipal Tasso da Silveira, na zona norte do Rio de Janeiro, e matou 12 alunos com idades entre 13 e 15 anos, além de ferir outras 10 pessoas antes de cometer suicídio após ser baleado pela polícia.
O ataque, conhecido como Massacre de Realengo, sempre gerou debates sobre suas motivações. O autor deixou vídeos e uma carta afirmando ter sofrido bullying durante os anos em que estudou na escola, justificativa que levou à criação do Dia Nacional de Combate ao Bullying, em 7 de abril, pela Lei 13.277/2016.
Pesquisadoras e ativistas feministas, porém, apontam que a misoginia foi um fator central negligenciado. A disparidade no número de vítimas — 10 meninas e 2 meninos — indica um padrão de ódio baseado em gênero.
“As explicações que surgiram na mídia à época chegaram a ser ridículas. Morreram mais meninas porque elas correm mais devagar ou porque costumam ser boas alunas e sentar nas primeiras fileiras da sala”, afirma Lola Aronovich, pesquisadora e ativista feminista.
Testemunhas relataram que o autor mirava nas meninas para matar e nos meninos para ferir. De acordo com registros, ele era parte da comunidade incel, frequentando fóruns que celebravam o ataque e o consideravam um herói.
Violência em escolas
A pesquisadora Cleo Garcia, doutora em educação pela Unicamp, analisou 40 ataques a escolas entre 2001 e 2024, com aumento expressivo entre 2022 e 2024. Todos os casos foram cometidos por homens e frequentemente relacionados a ideologias extremistas, racismo e misoginia.
Comunidades online desempenham papel importante ao intensificar ressentimentos e ódio, especialmente contra mulheres. Garcia explica que fatores psicológicos, baixa tolerância à frustração e dificuldade em assumir responsabilidades contribuem para a vulnerabilidade de jovens a essas ideias.
“A misoginia é multifatorial, combinando questões psicológicas e influências socioculturais, incluindo modelos de masculinidade que promovem agressividade e hierarquização das mulheres”, afirma Cleo.
Lola Aronovich reforça que jovens frustrados sexualmente podem se radicalizar em ambientes digitais, construindo uma masculinidade tóxica que legitima a violência.
Desafios e soluções
O ambiente escolar é essencial para a formação social e emocional dos jovens, destaca Cleo Garcia. Ela defende a integração entre família e escola e canais seguros de comunicação para estudantes discutirem dificuldades e sentimentos.
“A responsabilidade é de toda a sociedade, envolvendo investimentos em educação, saúde mental, assistência social, segurança pública e instituições de Estado”, completa.
Lola acrescenta que o enfrentamento da violência exige múltiplas frentes: segurança pública, educação, monitoramento digital e regulação das plataformas online, que muitas vezes lucram com a misoginia e radicalização.
O diálogo nas escolas e a supervisão dos pais sobre a atividade online dos filhos são fundamentais para prevenir novos casos.
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