A convergência de diretrizes epidemiológicas, a vigilância de vetores biológicos e o monitoramento do impacto climático sobre a incidência de patologias pautaram os debates na esfera legislativa estadual. A Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) sediou, nesta quinta-feira (25 de junho), o 1º Fórum Mato-Grossense de Uma Só Saúde (One Health).
O encontro técnico, que ocupou o Auditório Milton Figueiredo, reuniu sanitaristas, médicos veterinários, ecologistas, gestores do Sistema Único de Saúde (SUS) e pesquisadores acadêmicos para desenhar estratégias unificadas de contenção de surtos infecciosos.
Conceito interliga a saúde de pessoas, animais e ecossistemas
A engenharia conceitual do evento sustenta que a saúde humana, a sanidade animal e a integridade do meio ambiente não funcionam como compartimentos isolados, mas sim como um ecossistema indissociável. A quebra desse equilíbrio — provocada por desmatamentos, queimadas ou manejo inadequado de rebanhos — atua como o principal gatilho para o surgimento de epidemias globais e regionais.
Durante a intensa programação, as mesas redondas debateram eixos críticos como o fortalecimento do SUS, o avanço de zoonoses emergentes, a soberania alimentar e os impactos diretos das alterações meteorológicas na proliferação de vetores na Baixada Cuiabana e no interior.
Deputado Paulo Araújo defende descentralização da vigilância epidemiológica
A relevância de internalizar essa abordagem na dotação orçamentária do Estado foi detalhada pelo deputado estadual Paulo Araújo (Progressistas), um dos principais articuladores do fórum no Parlamento. O deputado ponderou que a medicina pública precisa migrar do modelo puramente hospitalar e reativo para um sistema de blindagem preventiva e preditiva.
“A iniciativa busca ampliar de forma definitiva a visão sobre a saúde pública, indo muito além do leito hospitalar e incorporando outras dimensões do sistema. A discussão envolve vigilância epidemiológica contínua, atenção hospitalar de alta complexidade, medicina veterinária preventiva e o enfrentamento de doenças negligenciadas dentro da lógica integrada de ‘Uma Só Saúde'”, defendeu o deputado Paulo Araújo.
Lideranças do Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas somaram-se ao debate, lembrando que enfermidades endêmicas crônicas — como a hanseníase e a leishmaniose — não serão erradicadas apenas com a distribuição de medicamentos, exigindo reformas em saneamento básico, habitação e controle de reservatórios silvestres e domésticos tanto em áreas urbanas quanto rurais.
Conselho de Medicina Veterinária alerta para o avanço da esporotricose
O papel da barreira sanitária veterinária no controle de infecções foi defendido pelo Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV-MT). O órgão alertou para a expansão geográfica de doenças de perfil fúngico e parasitário, a exemplo da esporotricose e da leishmaniose visceral, enfatizando a urgência de prefeituras utilizarem dados de geoprocessamento e censos de populações de cães e gatos para otimizar a aplicação de recursos em castrações e imunizações.
Representantes técnicos do Ministério da Saúde referendaram as discussões, pontuando que mais de 60% das doenças infecciosas humanas conhecidas possuem origem zoonótica (são transmitidas a partir de animais). A governança integrada proposta no fórum ficou sintetizada na seguinte matriz de competências:
| Pilar de Atuação | Foco da Vigilância Integrada | Ação Prática Indicada |
|---|---|---|
| Saúde Humana (SUS) | Diagnóstico precoce de patologias, tratamento clínico de infectados e campanhas de vacinação em massa. | Fortalecimento das equipes de Saúde da Família e notificação compulsória imediata de síndromes febris. |
| Saúde Animal (Veterinária) | Monitoramento de plantéis agropecuários, controle de zoonoses urbanas e manejo populacional de animais domésticos. | Barreiras sanitárias ativas em propriedades rurais e exames laboratoriais descentralizados em clínicas e CCZs. |
| Saúde Ambiental (Ecossistemas) | Fiscalização do desmatamento ilegal, preservação de biomas, controle de poluição de mananciais e análise climática. | Mapeamento de vetores (como o mosquito-palha e o Aedes aegypti) em áreas de transição urbana e matas nativas. |
Carta de Cuiabá consolidará metas para gestores da Baixada Cuiabana
Como desdobramento prático das discussões, comissões técnicas iniciaram a redação da “Carta do 1º Fórum Mato-Grossense de Uma Só Saúde”. O documento oficial compilará recomendações jurídicas, sanitárias e administrativas que serão entregues formalmente aos prefeitos e secretários municipais de Saúde, Meio Ambiente e Agricultura do estado.
A expectativa da ALMT é que o documento sirva de bússola para a criação de comitês intersetoriais permanentes, capazes de blindar as cidades contra futuras crises sanitárias e otimizar os investimentos públicos em Mato Grosso.
Reportagem baseada nos painéis epidemiológicos do Ministério da Saúde, notas técnicas de controle de zoonoses do CRMV-MT e resoluções da Organização Mundial da Saúde (OMS).
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