Audiência na ALMT debate 18 projetos que propõem alterações e flexibilizações no Código Florestal em MT

Entidades alertam para 18 projetos que podem flexibilizar regras ambientais e gerar insegurança jurídica no estado.

A iminência de reformas estruturais nas matrizes de fiscalização e o tensionamento entre a expansão da fronteira agropecuária e a conservação de biomas estratégicos pautaram os debates no Parlamento estadual. A Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) sediou, nesta quinta-feira (25 de junho), uma audiência pública convocada para analisar um pacote de propostas legislativas com potencial de alterar pontos centrais do Código Florestal Brasileiro e suas regulamentações estaduais.

O fórum técnico reuniu juristas, cientistas, movimentos sociais e parlamentares para avaliar os impactos ambientais, econômicos e jurídicos das matérias que tramitam nas comissões internas da Casa.

Pelo menos 18 projetos em tramitação na ALMT propõem flexibilizar o Código Florestal

O encontro foi provocado por requerimento do deputado estadual Lúdio Cabral (PT) e contou com a participação ativa de consultores do Observatório Socioambiental de Mato Grosso (Observa-MT), do Observatório do Código Florestal (OCF) e do Fórum Popular Socioambiental (Formad). As entidades lançaram um alerta técnico sobre um bloco de 18 projetos de lei em andamento na ALMT que, de forma conjunta ou isolada, buscam mitigar o rigor de normas consolidadas.

Os principais eixos de fricção jurídica mapeados pelas ONGs incidem sobre o regime de proteção das Áreas de Preservação Permanente (APPs) — como matas ciliares e encostas — e os percentuais obrigatórios de Reserva Legal exigidos para propriedades rurais nos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

Representante de Observatório alerta para risco de insegurança jurídica no STF

O secretário-executivo do Observatório do Código Florestal, Marcelo Elvira, ponderou que o estado obteve avanços significativos na governança verde nos últimos anos, mas que a aprovação dessas emendas pode reverter esse quadro de estabilidade. Segundo o analista, mexer em conceitos federais via legislação estadual pode deflagrar uma onda de insegurança jurídica para os próprios produtores, invalidando termos de ajustamento de conduta (TACs) e colidindo com teses já pacificadas no Supremo Tribunal Federal (STF).

O deputado Lúdio Cabral corroborou a análise, defendendo que o enfraquecimento de licenciamentos e a alteração de limites florestais ocorram à revelia da participação popular:

“O propósito desta audiência é dar luz e capilaridade ao debate público sobre projetos que tratam de licenciamento simplificado, flexibilização de reservas e permissão de atividades degradantes em áreas de preservação. Algumas dessas propostas representam um nítido retrocesso em relação à política ambiental rigorosa que Mato Grosso construiu a duras penas ao longo de décadas”, discursou o deputado Lúdio Cabral.

Consultoria aponta propostas de anistia a multas e desmonte do sistema do CAR

Os detalhes técnicos do mapeamento legislativo foram esmiuçados pela consultora jurídica Edilene Amaral. A especialista pontuou que, além da redução física das franjas protetivas de rios, o pacote de projetos abre brechas para a anistia retroativa de infrações e sanções administrativas pecuniárias aplicadas pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT).

Outro ponto de vulnerabilidade reside nas emendas que tentam alterar as regras de validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR). O sistema é o principal banco de dados para o planejamento ambiental e a regularização do campo, e sua desestruturação normativa pode paralisar os processos de certificação de cadeias produtivas exportadoras.

As principais ameaças apontadas pelos relatórios socioambientais ficaram sumarizadas na seguinte matriz analítica:

Mecanismo em Discussão Proposta de Alteração na ALMT Risco Técnico e Ambiental Apontado
Áreas de Preservação (APPs) Redução das metragens de proteção em margens de rios e permissão de barramentos simplificados. Aumento do assoreamento de cursos d’água e perda de conectividade de corredores ecológicos.
Licenciamento Ambiental Ampliação das modalidades de licença por adesão e compromisso (LAC) de forma autodeclaratória. Fragilização da fiscalização prévia do Estado sobre empreendimentos de médio e grande impacto.
Anistia a Infrações Suspensão ou perdão de multas ambientais lavradas antes da validação definitiva dos cadastros rurais. Estímulo à impunidade e desvalorização do produtor que cumpre regularmente as cotas de reflorestamento.

Pesquisador adverte sobre colapso hídrico nas bacias que alimentam o Pantanal

O encerramento dos painéis técnicos trouxe dados de alerta hidrológico para a Baixada Cuiabana e as cabeceiras do Pantanal. O pesquisador Lucas Barros Rosa exibiu modelagens climáticas e hidrológicas demonstrando que a redefinição legal de critérios de proteção de áreas úmidas pode acelerar o dessecamento de bacias hidrográficas vitais. Os estudos indicam uma tendência de redução sistemática na vazão histórica de rios formadores, o que impacta o abastecimento urbano e a geração de energia.

Os relatórios emitidos pelas frentes socioambientais durante a audiência pública serão compilados em um documento técnico consultivo. O calhamaço de notas técnicas será distribuído aos membros da Comissão de Meio Ambiente, Recursos Minerais e Água da ALMT, visando embasar os pareceres e votos que decidirão o futuro normativo do setor produtivo e florestal em Mato Grosso.

Reportagem baseada em notas técnicas do Observa-MT, planilhas de monitoramento de projetos do Observatório do Código Florestal e relatórios de vazão hidrológica de áreas úmidas.

Google Notícias
Siga o CenárioMT

Receba em primeira mão nossas notícias, tendências e exclusivas.