Uma investigação baseada no podcast Perdas e Danos reacende o debate sobre a relação entre grandes empresas e o regime militar no Brasil. O material reúne documentos históricos, registros oficiais e pesquisas acadêmicas que apontam possíveis vínculos entre executivos de multinacionais e estruturas associadas à repressão no período.
De acordo com o segundo episódio da produção, há indícios de que a Nestlé manteve relações indiretas com organizações empresariais e institutos que atuaram no contexto político que antecedeu e acompanhou o golpe de 1964. Entre os registros citados estão contribuições atribuídas a executivos da companhia ao Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), apontado como um dos grupos de articulação empresarial da época.
O Arquivo Nacional preserva documentos que indicam essas movimentações financeiras, reforçando o debate histórico sobre o papel de setores privados no período de exceção. A investigação também relaciona a empresa a estruturas citadas em relatórios oficiais, como a Comissão Nacional da Verdade, que menciona a participação de multinacionais em eventos ligados ao financiamento de operações repressivas.
Um dos nomes centrais da apuração é o do executivo Oswaldo Ballarin, citado como figura de destaque na representação da empresa no Brasil durante os anos 1970. Ele também ocupou cargos em outra multinacional do setor elétrico e teve atuação simultânea em diferentes frentes empresariais no período.
Segundo os relatos reunidos na investigação, Ballarin teria participado de redes corporativas associadas a contratos e estruturas empresariais envolvidas em grandes obras de infraestrutura no país, incluindo consórcios ligados a projetos estratégicos da época.
A pesquisa conduzida pela acadêmica Gabriella Lima, da Universidade de Lausanne, também é citada como base documental da apuração. Ela analisou arquivos empresariais e registros oficiais que apontam a existência de empresas de fachada e serviços de relações públicas associados a práticas de vigilância e repressão política.
Esses serviços, segundo os documentos analisados, estariam ligados a atividades de monitoramento de trabalhadores e articulações financeiras destinadas a apoiar estruturas de segurança do regime militar. Em relatórios internacionais e denúncias enviadas a autoridades suíças, essas práticas foram descritas como parte de um sistema mais amplo de cooperação empresarial com órgãos repressivos.
O executivo também foi mencionado em registros históricos relacionados a figuras acusadas de envolvimento direto com centros de repressão, como o DOI-Codi, estrutura responsável por operações de investigação e detenção durante a ditadura militar.
A investigação aponta ainda que a Nestlé, embora tenha negado acesso a parte de seus arquivos históricos, registrou crescimento expressivo de rentabilidade no Brasil durante o período do chamado “milagre econômico”. Estudos econômicos citados no material indicam expansão significativa de faturamento entre os anos de 1971 e 1975.
No campo social, o caso também é relacionado a debates internacionais sobre a atuação da indústria de alimentos. Em diferentes momentos, a empresa foi alvo de críticas sobre estratégias de marketing de fórmulas infantis, incluindo questionamentos levantados em audiências no exterior e por organizações sociais.
Relatórios e campanhas da década de 1970, como o documento The Baby Killer, foram citados na investigação como parte de uma mobilização global contra práticas de grandes empresas do setor em países em desenvolvimento.
Em posicionamentos recentes, a empresa afirma não compactuar com violações de direitos humanos e reforça compromisso com princípios de ética e governança corporativa. Já instituições e empresas citadas ao longo da apuração destacam políticas atuais de conformidade e respeito a normas internacionais.
O caso segue em debate entre pesquisadores, jornalistas e organizações de memória histórica, que buscam aprofundar a compreensão sobre a participação de setores empresariais no contexto político do regime militar brasileiro.
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