Há 62 anos, o golpe militar instaurou no Brasil um regime autoritário que durou 21 anos, marcado por censura, repressão e perseguição política. Muitas vítimas ainda têm seus corpos desaparecidos, o que evidencia os desafios do país na memória, reparação e justiça, mesmo após a redemocratização.
Segundo Edson Teles, coordenador do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) da Unifesp, a principal dificuldade é a ausência de um programa de estado permanente para a identificação de desaparecidos.
“Não há um programa nacional, fixo, com institucionalidade para busca de desaparecidos e trabalho forense de identificação humana”, afirmou.
Em países que investigaram desaparecimentos, políticas permanentes garantem continuidade independente de governos. Atualmente, o CAAF analisa 1.049 caixas com ossadas humanas encontradas na vala clandestina do Cemitério Dom Bosco, em Perus, São Paulo, em 1990. Entre os sepultados estavam vítimas políticas da ditadura.
Até agora, a identificação dos restos mortais de quatro desaparecidos foi confirmada: Dimas Antônio Casemiro e Aluísio Palhano Pedreira Ferreira, em 2018; e Denis Casemiro e Grenaldo de Jesus Silva, em 2025. Antes disso, Frederico Eduardo Mayr e Flávio Carvalho Molina já haviam sido identificados.
A pesquisa depende de contratos e financiamento periódicos, tendo sofrido interrupções durante o governo anterior, que suspendeu recursos do Grupo de Trabalho Perus. Segundo Teles, a Unifesp precisou arcar com manutenção das ossadas, mas não pôde avançar nas investigações.
Em 2024, um novo Acordo de Cooperação Técnica retomou a análise das ossadas, permitindo a identificação de duas vítimas em 2025. Teles alerta que a continuidade depende de financiamento e políticas de Estado consistentes.
Ditadura ainda é tabu
O tema da ditadura militar continua sensível. Andres Zarankin, professor da UFMG, ressalta que a persistência de grupos ligados à elite política e militar dificulta pesquisas sobre memória histórica. O Grupo de Trabalho Memorial DOI-Codi já encontrou objetos e material orgânico ligados a práticas de violência do período, incluindo a simulação de suicídio do jornalista Vladimir Herzog.
Vítimas ainda não procuradas
Edson Teles enfatiza a necessidade de uma política permanente para localizar restos mortais de desaparecidos, inclusive em pleno período democrático. Ele alerta que a prática do desaparecimento forçado ainda ocorre, sobretudo contra corpos periféricos e negros, com mecanismos semelhantes aos usados na ditadura.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 80 mil pessoas desaparecem por ano, e uma parte é vítima de desaparecimento forçado, seja por agentes do Estado, crime organizado ou outras formas de violência institucional.
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