O mercado da pecuária de corte deve atravessar os próximos meses com perspectivas positivas para os preços do boi gordo, impulsionado pela demanda doméstica e pela relevância crescente do Brasil nas exportações de carne bovina. Ao mesmo tempo, consultores e pesquisadores alertam que o maior desafio para o produtor estará na reposição dos rebanhos, já que o custo da cria tende a ganhar ainda mais peso dentro da atividade. As análises foram apresentadas durante a XXI Jornada Nespro e o II Congresso de Criadores, realizados no Rio Grande do Sul.
Para estados como Mato Grosso, que abriga o maior rebanho bovino comercial do país e ocupa posição estratégica nas exportações, as tendências debatidas durante o encontro são acompanhadas de perto por produtores, frigoríficos e empresas ligadas ao agronegócio.
Por que o mercado continua favorável?
Entre os fatores apontados pelos especialistas está a manutenção do consumo de carne bovina mesmo em um cenário de oscilações econômicas.
Levantamentos apresentados durante o evento mostram que cortes populares registraram valorização ao longo do ano sem provocar uma redução significativa na procura dos consumidores. Ao mesmo tempo, outras proteínas, como carne suína e frango, tiveram queda nos preços, mas isso não resultou em uma migração expressiva do consumo.
Na avaliação dos analistas, esse comportamento demonstra que a carne bovina continua ocupando espaço relevante na alimentação das famílias brasileiras, ajudando a sustentar as cotações da arroba.
Outro aspecto destacado foi o desempenho brasileiro no mercado internacional. Enquanto alguns concorrentes enfrentam redução na oferta de animais, o Brasil mantém capacidade de abastecer compradores de diferentes regiões do mundo, fortalecendo sua participação no comércio global.
O que esse cenário representa para Mato Grosso?
As projeções têm impacto direto sobre Mato Grosso, estado que lidera a produção nacional de bovinos e concentra uma cadeia pecuária altamente integrada.
Além das fazendas voltadas para cria, recria e engorda, o segmento movimenta frigoríficos, transportadoras, fabricantes de insumos, empresas de nutrição animal e diversos prestadores de serviços.
Quando o mercado apresenta preços firmes, parte desses setores também tende a ser beneficiada, principalmente nas regiões onde a pecuária representa uma das principais atividades econômicas.
[Link interno: Economia de Mato Grosso]
A cria passa a ser o principal desafio
Se a perspectiva para a venda do boi é considerada positiva, a produção de bezerros exige atenção cada vez maior.
Segundo os dados apresentados durante o congresso, a relação de troca para aquisição de animais de reposição vem se tornando mais desfavorável ao longo das últimas décadas.
Isso significa que manter um sistema eficiente de cria deixou de ser apenas uma etapa da produção para se tornar um fator decisivo na rentabilidade da fazenda.
Os especialistas defenderam investimentos em genética, reprodução, manejo nutricional e tecnologias capazes de elevar a produtividade sem depender da expansão de áreas, realidade bastante diferente daquela observada durante a ocupação das fronteiras agrícolas brasileiras nas décadas passadas.
Mudanças no consumo também entram no radar
Outro tema debatido durante o encontro foi a evolução dos hábitos alimentares.
A especialista Andréa Mesquita destacou que diferentes países vêm discutindo novamente o papel das proteínas na alimentação, em meio ao crescimento dos índices de obesidade e às revisões de recomendações nutricionais.
Ela também chamou atenção para o avanço do uso de medicamentos voltados ao emagrecimento. Segundo a análise apresentada, esses tratamentos podem estimular uma busca maior por alimentos ricos em proteínas, já que a preservação da massa muscular costuma ser um dos objetivos durante o processo de perda de peso.
Caso essa tendência se fortaleça nos próximos anos, a demanda por carne poderá ganhar um novo impulso, abrindo oportunidades adicionais para a cadeia pecuária brasileira.
Gestão eficiente será cada vez mais importante
Além de acompanhar o comportamento do mercado, os especialistas reforçaram que a gestão da propriedade continuará sendo um diferencial competitivo.
O controle dos custos, a adoção de tecnologia e o acompanhamento de indicadores econômicos foram apontados como fatores essenciais para enfrentar um cenário em que a reposição do rebanho tende a representar parcela crescente dos investimentos da atividade.
Na avaliação dos participantes, propriedades que conseguem produzir mais bezerros por matriz, reduzir perdas e melhorar os índices zootécnicos estarão mais preparadas para aproveitar os ciclos positivos do mercado.
Evento reforça visão de longo prazo para a pecuária
A XXI Jornada Nespro e o II Congresso de Criadores reuniram cerca de 800 participantes entre produtores, pesquisadores, estudantes, técnicos e representantes da cadeia da carne. Durante dois dias de programação, o encontro abordou temas ligados ao mercado, inovação, tecnologia, consumo e gestão.
Ao final do evento, a organização confirmou que uma nova edição já está prevista para 2027, mantendo a parceria entre o Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (Nespro/UFRGS) e o Instituto Desenvolve Pecuária.
Para o produtor rural, a principal mensagem deixada pelo encontro é que o cenário continua oferecendo oportunidades, mas exigirá decisões cada vez mais técnicas. Em estados como Mato Grosso, onde a pecuária tem papel central na economia, acompanhar a evolução dos custos, investir em eficiência e monitorar as tendências do mercado deverá ser fundamental para preservar a competitividade nos próximos anos.
Receba em primeira mão nossas notícias, tendências e exclusivas.