Feminicídio no Brasil: homicídios femininos caem 27,7% em uma década

Levantamento do Atlas da Violência aponta redução nos homicídios de mulheres entre 2014 e 2024, mas destaca estabilidade nos casos de feminicídio. Norte e Nordeste seguem com as maiores taxas do país.

O Brasil registrou uma redução de 27,7% nos homicídios de mulheres entre 2014 e 2024, segundo dados do Atlas da Violência 2026. Apesar da queda, o país contabilizou 46.336 mortes no período, evidenciando a persistência da violência letal contra mulheres, com maior concentração nas regiões Norte e Nordeste.

O levantamento foi elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e reforça a análise de tendências da violência de gênero no país ao longo da última década.

De acordo com o estudo, a redução geral está associada principalmente à queda dos homicídios ocorridos fora do ambiente doméstico. A taxa passou de 3,47 por 100 mil mulheres em 2014 para 2,17 em 2024, indicando uma mudança no perfil das ocorrências registradas.

Entre os estados com maior redução percentual no período estão Sergipe e Goiás, enquanto Roraima e Amazonas seguem com os índices mais elevados de homicídios femininos no país.

Feminicídios

No caso dos feminicídios, o cenário permanece praticamente inalterado. A taxa de mortes dentro do ambiente doméstico variou de 1,25 para 1,18 por 100 mil mulheres ao longo do período analisado, o que indica ausência de redução significativa nesse tipo de crime.

Em 2024, foram registrados 3.642 casos de mortes de mulheres nesse contexto. No acumulado da série histórica, os feminicídios representam 40,3% do total de homicídios femininos.

O pesquisador Daniel Cerqueira, do Ipea, destaca que a tipificação do feminicídio passou a ser aplicada após a entrada em vigor da lei em 2015, o que exigiu adaptação dos registros policiais.

“Uma coisa que não muda é essa estabilidade inaceitável da violência feminicida no Brasil.”

Violência não letal

O estudo também aponta 293.842 registros de violência não letal contra mulheres. A maior parte das ocorrências aconteceu dentro das residências, representando 64% do total, com alta incidência de agressões físicas e recorrência dos episódios ao longo do mesmo ano.

Segundo os dados, 66,2% das vítimas atendidas relataram múltiplos episódios de violência no período analisado, o que reforça o caráter repetitivo dessas ocorrências.

Faixas etárias e tipos de violência

Os dados mostram variações conforme a idade. Entre crianças de 0 a 9 anos e pessoas com mais de 70 anos, predomina a negligência. Já entre 10 e 14 anos, a violência sexual representa quase metade dos casos registrados.

A partir dos 15 anos até os 69 anos, a violência física se torna a principal forma de agressão, frequentemente associada a relações íntimas e ocorrendo em conjunto com outros tipos de violência.

Mulheres negras

O levantamento também evidencia desigualdades raciais. Em 2024, a taxa de homicídios entre mulheres negras foi 66,7% superior à registrada entre mulheres não negras, reforçando a desigualdade estrutural da violência no país.

Foram registrados 2.457 homicídios de mulheres negras no ano, o equivalente a 67,5% do total. Apesar disso, houve queda de 9,1% em relação ao ano anterior, atingindo o menor nível da série recente.

No recorte estadual, alguns estados apresentaram taxas acima da média nacional, enquanto outros ficaram abaixo, com variações significativas entre as unidades da federação ao longo da década analisada.

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