Polícia Civil de MT cumpre mandados contra quadrilha do ‘golpe do falso exame’ em hospitais

Ação interestadual investiga grupo suspeito de fraudes contra familiares de pacientes hospitalares.

A articulação interestadual das forças de segurança pública desfechou uma ofensiva técnica para desarticular os braços financeiros e operacionais de uma sofisticada organização criminosa especializada em estelionato digital de alta vulnerabilidade. A Polícia Civil de Mato Grosso (PJC-MT) deflagrou, nesta quarta-feira (24 de junho), o cumprimento de seis mandados de busca e apreensão domiciliar em suporte a uma força-tarefa liderada pela Polícia Civil do Paraná (PCPR). As incursões táticas ocorreram de forma simultânea nos municípios de Várzea Grande, Rondonópolis e Jangada.

As ordens judiciais miraram os endereços residenciais e escritórios de suspeitos de integrar o núcleo de captação e lavagem de capitais do esquema conhecido nacionalmente como o “golpe do falso exame”.

Quadrilha usava dados médicos reais para extorquir parentes de pacientes internados

O arranjo criminoso investigado pela Delegacia de Estelionato de Curitiba (PR) operava através da exploração do abalo psicológico de familiares de pessoas internadas em estado grave, muitas vezes em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). De acordo com o relatório descritivo da polícia paranaense, os golpistas utilizavam dados clínicos reais e extremamente sigilosos das vítimas — como nome completo, CPF, histórico de comorbidades e o nome do médico assistente — para conferir total veracidade à abordagem telefônica.

Durante a ligação fraudulenta, os criminosos se passavam por diretores clínicos ou secretários de finanças dos hospitais, alegando que o plano de saúde havia recusado a cobertura ou que o SUS exigia um copagamento urgente para a liberação de exames diagnósticos complexos, medicamentos importados ou cirurgias de emergência. Induzidos ao erro pelo desespero, os parentes efetuavam transferências bancárias instantâneas via Pix.

Investigação aponta divisão de tarefas e lavagem de dinheiro em Várzea Grande e interior

O monitoramento do fluxo de capitais executado pelos analistas de inteligência da Delegacia Especializada de Estelionato de Várzea Grande revelou uma engrenagem hierarquizada com clara divisão de tarefas entre os membros residentes em Mato Grosso:

  • Núcleo de Operações (Engenharia Social): Criminosos encarregados de realizar os telefonemas e gerenciar os roteiros de persuasão a partir de dados vazados;
  • Contas de Passagem (Conteiros): Indivíduos recrutados em Várzea Grande, Rondonópolis e Jangada para ceder chaves Pix e contas correntes de aluguel para o recebimento primário dos valores extorquidos;
  • Fracionamento Financeiro: Operadores financeiros que realizavam transferências automáticas e sucessivas em cascata para dezenas de outras contas bancárias de CPFs laranjas, pulverizando o montante para burlar as travas do Banco Central e dificultar o rastreamento do COAF.

Foco das buscas mira descobrir origem do vazamento de prontuários em hospitais

O material coletado pelas equipes de investigadores durante as buscas desta quarta-feira — incluindo smartphones, notebooks, extratos de movimentação bancária e anotações de contabilidade — foi lacrado e passará por perícia forense digital. O principal objetivo da linha de investigação atual é descobrir a matriz do vazamento dos dados. As autoridades suspeitam que a quadrilha contasse com a facilitação interna de funcionários de hospitais ou através do hackeamento de sistemas de prontuários eletrônicos de redes de saúde.

Os suspeitos identificados e qualificados nas residências vistoriadas em Mato Grosso foram conduzidos para prestar depoimento formal nas delegacias locais e responderão em liberdade pelos crimes de estelionato qualificado pela fraude eletrônica, associação criminosa e lavagem de dinheiro em Mato Grosso.

Reportagem baseada em mandados de busca e apreensão da Vara de Inquéritos Criminais de Curitiba, relatórios de inteligência financeira da Delegacia de Estelionato da PCPR e boletins de diligência de campo da PJC-MT.

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