Agricultores são indiciados por desvio de soja em Água Boa

Investigação da Polícia Civil aponta prejuízo superior a R$ 9 milhões após descumprimento de contratos de entrega de soja ligados a CPRs.

Um esquema de desvio de soja que causou prejuízo superior a R$ 9 milhões resultou no indiciamento de dois agricultores pela Polícia Civil em Água Boa, no leste de Mato Grosso. A apuração concluiu que a produção vinculada a contratos formais de compra e venda não foi entregue conforme o acordado, apesar de a safra ter sido efetivamente colhida.

O inquérito, conduzido pela Delegacia Regional de Água Boa, identificou que parte significativa da soja negociada por meio de contratos lastreados em Cédulas de Produto Rural foi desviada para armazéns e destinatários diferentes dos previstos, sem autorização da empresa credora, configurando indícios de estelionato.

De acordo com informações da Polícia Civil, a investigação teve início após denúncia formal de uma empresa sementeira com atuação no sul do estado. A companhia relatou que forneceu sementes mediante contratos de compra e venda atrelados a CPRs, garantidas por alienação fiduciária e penhor em primeiro grau, dentro de uma operação conhecida no setor como barter.

Conforme os contratos, o produtor rural Rodrigo Piccinini deveria entregar 95.433 sacas de soja referentes à safra 2024/2025 em armazéns previamente definidos, entre eles unidades da Cargill. No entanto, segundo as apurações, essa entrega não ocorreu nos moldes pactuados.

O delegado responsável pelo caso, Bruno Gomes Borges, detalhou que as diligências demonstraram que a safra foi colhida normalmente, contrariando a alegação apresentada pelo investigado de que teria havido perdas expressivas por alagamento. Laudos técnicos e relatórios de auditoria anexados ao inquérito sustentaram essa conclusão.

Rastreamento da produção

Um dos pontos centrais da investigação foi o monitoramento das áreas cultivadas. Diante de uma nova quebra contratual na safra atual, a empresa lesada contratou serviços especializados para acompanhar a movimentação dos grãos. Os rastreamentos indicaram que a produção estava concentrada nos municípios de Água Boa e Ribeirão Cascalheira.

Segundo depoimento de testemunha ligada à sementeira, os grãos que deveriam ser entregues exclusivamente à credora foram direcionados a armazéns distintos dos previstos nas CPRs e registrados em nome de terceiro. Esse terceiro foi identificado como Diego Sichocki, que também passou a figurar como investigado.

Após a concessão de uma liminar de arresto, oficiais de justiça, acompanhados por representantes da empresa, realizaram diligências em oito armazéns nas regiões investigadas. A conferência de placas de veículos, cruzada com relatórios de monitoramento, permitiu confirmar que os grãos armazenados tinham origem nas áreas dadas em garantia nos contratos.

Os dados técnicos apontaram uma produção aproximada de 5.726.000 kg de soja nas áreas onde as sementes fornecidas foram plantadas, reforçando a tese de que não houve perda significativa capaz de justificar o não cumprimento das obrigações contratuais.

Indiciamento e próximos passos

A apuração também identificou uma estratégia de pulverização das entregas em diferentes armazéns como forma de dificultar o rastreamento da produção. Segundo a polícia, essa prática teria sido realizada com plena ciência do segundo investigado.

Com base no conjunto probatório reunido, Rodrigo Piccinini foi indiciado por estelionato qualificado, com abuso de confiança e defraudação de penhor, enquanto Diego Sichocki foi apontado como coautor do mesmo crime, nos termos do Código Penal. O inquérito foi encaminhado ao Ministério Público, que deverá analisar o oferecimento de denúncia. As informações são da Polícia Civil de Água Boa.

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