Raimundo: jornalista que resistiu à ditadura morre no Rio aos 85 anos

Profissional marcou a história da imprensa brasileira ao atuar na resistência durante o regime militar e deixa legado de defesa da democracia.

Morreu na manhã de sábado (2), no Rio de Janeiro, o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, aos 85 anos. Reconhecido por colegas como um defensor incansável da informação e da democracia, ele teve atuação destacada na resistência à ditadura instaurada no Brasil a partir de 1964.

Nascido em Exu, Pernambuco, Raimundo ainda jovem se posicionou de forma crítica diante do cenário político da época. Estudante do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), foi expulso da instituição após manifestar suas opiniões por meio de um jornal estudantil. A repressão política o colocou na mira das autoridades, resultando em sua prisão no Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops), em São Paulo, e posterior transferência para uma base aérea no litoral paulista.

Após o período de detenção e anos vividos na clandestinidade, ingressou na Universidade de São Paulo (USP), onde se formou em Física. Sua entrada no jornalismo ocorreu de forma inesperada, ao assumir trabalhos como redator em revistas técnicas, iniciando uma trajetória que o consolidaria como referência na profissão.

Ao longo da carreira, participou da criação de importantes veículos de comunicação e integrou equipes de revistas e jornais relevantes do país. Em 1972, assumiu a direção do jornal alternativo Opinião e, posteriormente, fundou o Movimento, publicação que se tornou símbolo da articulação política e social contra o regime militar.

O jornal Movimento foi além do papel informativo, funcionando como espaço de mobilização e resistência democrática. A publicação reuniu vozes críticas e contribuiu para o fortalecimento do debate político durante um período de forte censura.

Raimundo também atuou em veículos da grande imprensa após o fim do Movimento, mantendo uma trajetória marcada pelo compromisso com a apuração rigorosa e a clareza na informação.

Entidades representativas do jornalismo destacaram que sua atuação se confunde com a própria história da luta democrática no Brasil. Ele não se vinculou a partidos políticos, mas manteve postura firme na defesa das liberdades civis, utilizando a palavra como principal instrumento de atuação.

O jornalista foi cremado no bairro do Caju, na capital fluminense. Seu legado permanece associado à resistência, à ética profissional e à defesa da democracia.

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