Crianças da comunidade quilombola de Antinha de Baixo, localizada na zona rural de Santo Antônio do Descoberto (GO), enfrentam diariamente uma rotina marcada por dificuldades para acessar a educação. Antes do amanhecer, por volta das 4h30, irmãos acordam para iniciar um trajeto de cerca de dois quilômetros por estrada de terra, em meio à escuridão, até conseguirem embarcar em um transporte escolar.
A caminhada dura cerca de 50 minutos e é necessária para não perder a única condução disponível, que sai por volta das 6h10 em direção às escolas municipais, situadas a aproximadamente 15 quilômetros da comunidade. Ao todo, ao menos 40 estudantes dependem de três veículos para chegar às aulas.
Moradores relatam que, apesar de melhorias recentes, a situação ainda é crítica. Pais como Roberto Braga e Mayara Soares destacam que não tiveram acesso à educação na infância pela falta de transporte e esperam que os filhos tenham oportunidades melhores. “Hoje ainda é muito difícil. A estrada é escura e perigosa”, afirma o pai.
A comunidade, que reúne cerca de 400 famílias, recebeu recentemente o certificado de autorreconhecimento como remanescente de quilombo. O documento foi emitido após anos de disputas territoriais com fazendeiros e grileiros. A medida abre caminho para a regularização fundiária e para o acesso a políticas públicas essenciais.
Equipes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) estiveram no local para elaborar estudos técnicos que subsidiarão o processo de demarcação. A expectativa dos moradores é que a titulação da terra seja concluída até 2027.
Enquanto isso, a falta de infraestrutura segue impactando o cotidiano. Não há iluminação nas vias, transporte regular em todos os horários nem acesso facilitado a serviços de saúde. Em dias de chuva, o deslocamento se torna ainda mais difícil, podendo impedir completamente a ida à escola.
Além disso, estudantes não conseguem frequentar aulas no período da tarde por ausência de transporte. Casos anteriores mostram a precariedade: uma adolescente precisou atravessar um córrego diariamente, chegando à escola com roupas molhadas, até que a situação fosse parcialmente resolvida após reclamações.
A comunidade também enfrenta carência de serviços básicos, como posto de saúde e creche. Em emergências, moradores dependem da solidariedade de vizinhos com veículos próprios para buscar atendimento médico a cerca de 20 quilômetros de distância.
A organização local tem avançado. Uma associação de moradores foi oficialmente registrada e reúne mais de 100 integrantes. Entre as principais reivindicações estão melhorias nas estradas, iluminação pública, transporte escolar adequado, acesso à saúde e incentivo à agricultura familiar.
Apesar das dificuldades, famílias mantêm a esperança de mudança. Crianças seguem motivadas a estudar, enquanto adultos veem na educação uma oportunidade de romper ciclos históricos de exclusão. “Queremos que eles tenham o que nós não tivemos”, resume uma moradora.
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