A asfixia financeira e o rastreamento logístico de rotas de escoamento de entorpecentes vindos da Bolívia mobilizaram o braço investigativo na faixa de fronteira. A Polícia Civil de Mato Grosso (PJC-MT), por meio de uma ação conjunta entre as delegacias de Vila Bela da Santíssima Trindade e de Pontes e Lacerda, deflagrou o cumprimento de quatro mandados de busca e apreensão domiciliar. O objetivo das ordens judiciais é colher novas provas técnicas sobre a atuação de um grupo criminoso especializado no transporte de grandes carregamentos de cocaína.
A ofensiva é o desdobramento de uma investigação de alta complexidade que mapeia a rede de apoio aéreo e terrestre dos traficantes que operam no ecossistema de fronteira seca do estado.
Inquérito foi aberto após apreensão de 110 kg de pasta base de cocaína e confronto
A origem do procedimento policial remonta ao mês de abril de 2024, quando uma equipe de investigadores interceptou um veículo VW Saveiro que vinha sendo monitorado por suspeita de operar como “mula” para consórcios criminosos. Ao receber o comando legal de parada, o condutor desobedeceu e jogou a picape contra a viatura oficial para tentar abrir rota de fuga.
Na sequência da evasão, os ocupantes abriram fogo contra os policiais civis, que revidaram os disparos. Os criminosos abandonaram o veículo e adentraram uma região de mata fechada. No cerco tático, um dos atiradores foi localizado ferido, recebeu atendimento médico de urgência em uma unidade hospitalar local, mas acabou evoluindo a óbito.
No interior da Saveiro, os agentes apreenderam:
- Carga Ilícita: Cerca de 110 quilos de pasta base de cocaína prensada em tabletes com selos de pureza de cartéis internacionais;
- Radiocomunicação: Equipamentos de rádio transceptores de alta frequência (HT) utilizados para comunicação em áreas sem sinal de celular;
- Rastreabilidade: Documentos e anotações que serviram como fios condutores para a identificação dos financiadores do bando.
Imagens de monitoramento revelam logística de viagens sucessivas para outros estados
O cruzamento de dados de inteligência e a análise de circuitos de câmeras de segurança rodoviária indicam que a organização criminosa possuía uma estrutura empresarializada, com motoristas fixos e batedores de estrada encarregados de monitorar o posicionamento de barreiras do Gefron e da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Os relatórios técnicos sugerem que o grupo realizou múltiplas viagens de sucesso utilizando a mesma logística de camuflagem na lataria de utilitários, distribuindo a droga para grandes centros urbanos do país.
Delegado João Paulo Berté mira quebra de sigilo bancário e lavagem de capitais
O material coletado no cumprimento das buscas — incluindo smartphones de última geração, mídias digitais e documentos cartorários — passará por triagem forense. O delegado responsável pelo inquérito, João Paulo Berté, ressaltou que esta nova fase visa sufocar o patrimônio da organização através do cruzamento de informações financeiras e fiscais autorizadas pela Justiça.
“Os mandados têm como objetivo identificar novos participantes e esclarecer a extensão das atividades. A análise dos celulares e o cruzamento de dados bancários, fiscais e patrimoniais devem auxiliar na identificação da estrutura financeira utilizada pelo grupo”, explicou o delegado João Paulo Berté.
Os alvos identificados responderão pelas sanções da Lei nº 11.343/2006 (Lei de Drogas), cujas penas isoladas para o crime de tráfico internacional e associação para o tráfico ultrapassam os 15 anos de reclusão. Os ativos financeiros identificados nas contas dos laranjas foram preventivamente bloqueados para posterior perdimento de bens em favor da União em Mato Grosso.
Reportagem baseada em autos de apreensão de entorpecentes da PJC-MT, laudos periciais de balística forense da Politec e relatórios de monitoramento de fronteira do Gefron.
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