Ara Ketu nasceu para transformar vidas na periferia, diz fundadora

Criado em Salvador em 1980, o Ara Ketu surgiu com a proposta de promover inclusão social por meio da música. Durante o Festival Latinidades, artistas destacaram o papel da cultura afro na transformação de comunidades.

A professora e historiadora baiana Vera Lacerda, de 79 anos, afirmou que criou o bloco e o instituto Ara Ketu, em março de 1980, motivada pelo desejo de enfrentar as desigualdades sociais na periferia de Salvador. O relato foi feito durante participação no Festival Latinidades, em Brasília, onde artistas compartilharam experiências sobre o impacto social da cultura afro-brasileira.

Fundado no bairro de Periperi, no subúrbio ferroviário da capital baiana, o Ara Ketu nasceu a partir de uma iniciativa liderada por Vera Lacerda e seu primo Augusto César, falecido em 2016. Embora a música e o carnaval tenham contribuído para a projeção nacional do grupo, a proposta inicial era promover inclusão social por meio da cultura.

O nome da agremiação faz referência à cidade de Ketu, localizada no Benim, região de onde partiram milhares de pessoas escravizadas trazidas ao Brasil durante o período colonial.

Segundo Vera Lacerda, a criação do bloco foi impulsionada pelo inconformismo diante da realidade vivida pelos jovens da comunidade. A professora, mestre em Filosofia, afirmou que encontrou na música um instrumento para incentivar oportunidades e afastar crianças e adolescentes da criminalidade.

Ela destacou que mais de 3 mil jovens participaram de cursos profissionalizantes, tanto na área musical quanto em outras formações oferecidas pelo instituto. Ao longo das décadas, o Ara Ketu conquistou reconhecimento no Brasil e também no exterior.

Para a fundadora, o maior reconhecimento, porém, vem dos relatos de ex-alunos que conseguiram ingressar no mercado de trabalho após passarem pelos cursos promovidos pela instituição.

Vera Lacerda também recebeu o título de comendadora concedido pela Academia Brasileira de Letras, em reconhecimento ao trabalho social desenvolvido por meio da cultura.

Didá fortalece protagonismo feminino

Durante o debate, Vera foi apontada como inspiração para o bloco Didá, tradicional agremiação do Pelourinho formada exclusivamente por mulheres. A presidente da entidade, Débora Souza, de 48 anos, é filha de Antônio Luiz Alves Souza, conhecido como Neguinho do Samba, fundador do grupo.

Débora informou que mais de 5 mil mulheres já passaram pelo Didá, onde a música é utilizada como instrumento de expressão cultural, fortalecimento da identidade e defesa da liberdade feminina.

Cultura como ferramenta de transformação

A mesa de debates também contou com a participação da cantora e radialista Denise Oliveira, produtora da Rádio Nacional. Nascida e criada em São Sebastião, região administrativa do Distrito Federal, ela afirmou que iniciativas como o Ara Ketu e o Didá contribuem para ampliar oportunidades e fortalecer a identidade da população negra.

Denise relatou que foi por meio da arte que passou a se reconhecer como mulher negra, artista e trabalhadora da cultura. Ela também criou o projeto independente e voluntário Vozes da Diversidade, dedicado à divulgação de artistas das periferias do Distrito Federal. Em 2024, a iniciativa foi indicada ao prêmio WME da Billboard na categoria voltada ao reconhecimento de histórias de empoderamento e representatividade feminina.

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