O avanço do “Desenrola Fies” em Mato Grosso acendeu um alerta estrutural sobre o futuro do ensino superior no estado. Em menos de 30 dias de programa, 1.444 estudantes mato-grossenses correram para renegociar suas dívidas, colocando o estado na vanguarda da adesão nacional. Contudo, o sucesso do mutirão — que no país já perdoou R$ 4 bilhões em calotes — joga luz sobre uma realidade indigesta: o atual modelo de crédito estudantil faliu e está sufocando os recém-formados locais.
Nas últimas duas décadas, Mato Grosso viveu uma explosão na oferta de cursos superiores. Impulsionadas pelo boom do agronegócio e pela interiorização do desenvolvimento, universidades públicas e privadas expandiram seus campi de Cuiabá a Sinop.
Nesse cenário, o Fies tornou-se o principal motor de mobilidade social, funcionando como a única porta de entrada na faculdade para milhares de jovens de baixa renda do estado.
O problema é que o mercado de trabalho pós-graduação não acompanhou o ritmo dos boletos. Hoje, metade de todos os contratos do Fies está inadimplente.
O gargalo local: Da faculdade ao mercado de trabalho
O perfil dos descontos concedidos pelo governo federal ajuda a explicar o tamanho da crise em Mato Grosso. Mais de 91% dos estudantes que procuraram o programa precisaram de abatimentos iguais ou superiores a 77% para conseguir limpar o nome. Para os inscritos no CadÚnico, o perdão chegou a impressionantes 99%.
Para Rodrigo Capelato, diretor executivo do Semesp (sindicato que representa as instituições de ensino superior), os números mostram que o Fies virou uma armadilha por punir o estudante logo após a formatura, independentemente de sua realidade financeira.
“Os resultados evidenciam a necessidade urgente de repensar o modelo do Fies. Ele deixou de acompanhar a realidade financeira dos estudantes após a conclusão da graduação”, afirma Capelato.
Em Mato Grosso, onde a economia é altamente dinâmica mas concentrada em setores específicos, a transição da faculdade para um emprego com salário compatível com as parcelas tem se mostrado um desafio. Diante disso, especialistas defendem uma mudança radical inspirada na Austrália: vincular o pagamento à renda. Se o profissional estiver desempregado ou recebendo abaixo de um teto estipulado, a cobrança em Mato Grosso ficaria suspensa, evitando que o sonho do diploma se transforme em restrição no CPF.
Raio-X do Fies no Brasil (Reflexo em Mato Grosso)
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Contratos ativos (até 2017): 2 milhões
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Estudantes na inadimplência: ~1 milhão (50%)
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Total renegociado no país: R$ 5,1 bilhões
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Prejuízo assumido pelo governo (perdão): R$ 4 bilhões
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Adesão em Mato Grosso: 1.444 contratos em menos de um mês
Revolta dos adimplentes ecoa no Estado
Se por um lado o Desenrola trouxe alívio para mais de 1,4 mil famílias mato-grossenses que estavam sufocadas por dívidas antigas (contratadas até 2017), por outro gerou um forte sentimento de injustiça em quem prioriza o pagamento em dia.
Estudantes adimplentes do estado têm usado as redes sociais para protestar contra as regras atuais. Enquanto quem atrasou a dívida por anos obteve descontos de até 99%, o aluno regular só tem direito a 12% de abatimento — e apenas se pagar o saldo total à vista. Dos cerca de 1 milhão de pagadores exemplares no país, meros 5.334 conseguiram aderir a essa modalidade.
Essa pressão do eleitorado jovem e de classe média chegou ao Palácio do Planalto. De olho no calendário eleitoral de 2026, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, confirmou que o governo estuda criar um “bônus” para premiar quem nunca atrasou as parcelas.
Para Mato Grosso, o redesenho do Fies é urgente. A sustentabilidade do programa definirá se o estado continuará incluindo jovens de baixa renda no ambiente universitário ou se continuará gerando uma massa de profissionais formados e endividados antes mesmo de consolidarem suas carreiras no mercado regional.
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