Escravidão doméstica é tema de reportagem da TV Brasil que revela histórias de vítimas

Programa da TV Brasil apresenta relatos de mulheres que sofreram exploração em casas de família e ainda hoje refletem a persistência do trabalho escravo doméstico no país.

O dia 25 de março de 2026 marcou uma data simbólica reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU), que classificou a escravização de africanos como o crime mais grave contra a humanidade. O Brasil esteve entre os 123 países que apoiaram a resolução.

Dados históricos apontam que cerca de 4,86 milhões de africanos foram traficados para o Brasil entre 1501 e 1900, segundo o Banco de Dados do Comércio Transatlântico de Escravos, o maior número registrado no mundo. O país também foi o último das Américas a abolir oficialmente a escravidão, em 1888, em um processo considerado incompleto por especialistas.

Para o cientista político e diretor da ONG Repórter Brasil, Leonardo Sakamoto, a abolição não significou o fim da exploração do trabalho, mas uma mudança em suas formas.

“A data representou, é claro, a abolição do trabalho escravo, mas não o rompimento com a forma de exploração do trabalho. A gente viu muito mais uma mudança na forma de exploração do que uma liberação que significasse independência”, afirmou.

Mais de um século depois, a exploração ainda persiste em diferentes contextos, inclusive dentro de residências. Esse é o tema do programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, que apresenta o episódio “Trabalho escravo doméstico: silêncio e servidão”. A produção reúne relatos de vítimas e profissionais que atuam no resgate e acompanhamento pós-libertação.

Segundo a ministra Liana Chaib, do Tribunal Superior do Trabalho, uma das principais dificuldades enfrentadas pelas vítimas após o resgate é a reinserção social.

“A primeira pergunta é: para onde eu vou?”, disse.

Entre os relatos exibidos, Suzana Salomono conta que não tinha estrutura familiar ou apoio após anos de exploração.

“Eu não tinha casa, família nem ninguém para me abraçar”, relatou.

Outra vítima, Roberta dos Santos, de 46 anos, afirma que o pagamento pelo trabalho era feito apenas com alimentação restrita.

“Só que a patroa dizia que eu só tinha direito a um prato de comida no almoço. No jantar não tinha. Nem eu, nem meu menino”, disse.

O programa também apresenta o caso de Araci do Amaral, de 73 anos, que relata agressões físicas e ofensas racistas durante o período em que trabalhou como doméstica.

“Ele chegava xingando, falando ‘nega, não sei o quê’. E me agrediu umas duas ou três vezes”, contou.

Maria Santiago, de 78 anos, afirma que trabalhou por décadas sem receber salário e sem acesso a benefícios registrados em seu nome.

“Eu não sabia a senha, nem conhecia o cartão”, relatou.

Já Maria Raimunda, de 63 anos, denuncia ter perdido o filho durante o período em que esteve sob exploração.

“Deixa eu pegar ele no colo, Maria… Quando eu saí, ela disse: ‘o neném já lá vai…’”, lembrou. Ela nunca mais viu o filho.

De acordo com a coordenadora-geral de Fiscalização do Trabalho Análogo à Escravidão do Ministério do Trabalho e Emprego, Shakti Borela, o perfil das vítimas resgatadas é marcado por vulnerabilidade social.

Mais da metade não concluiu o ensino fundamental, cerca de 24% são analfabetas e 72% são mulheres negras.

O episódio reforça que, mesmo após 138 anos da abolição, o trabalho doméstico em condições análogas à escravidão ainda é uma realidade no Brasil, exigindo fiscalização contínua e políticas de proteção social.

Como denunciar

Denúncias de trabalho escravo podem ser feitas de forma gratuita e sigilosa, a qualquer hora do dia. O canal principal é o Disque 100. Também é possível utilizar o WhatsApp (61 99611-0100) e o Telegram, buscando por “Direitoshumanosbrasil”.

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