Para quem dirige pelo centro de Sinop, a cena se tornou quase um hábito: janelas fechadas, desvio de olhares e, eventualmente, algumas moedas trocadas por um pacote de doces na mão de uma criança. Mas o que parece um ato isolado de caridade, na verdade, financia uma engrenagem que rouba infâncias.
Para tentar romper essa dinâmica, técnicos e assistentes sociais do CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) saíram dos gabinetes na manhã desta terça-feira (30) e ocuparam os principais gargalos viários da cidade — os cruzamentos da Avenida André Maggi com a Avenida dos Pinheiros e com a Avenida das Figueiras.
O objetivo foi direto: conscientizar o motorista de que a moeda que ele entrega no semáforo ajuda a manter aquela criança longe da escola.
O diagnóstico das ruas de Sinop
A ação não acontece por acaso. O crescimento econômico de Sinop trouxe consigo um efeito colateral visível nos canteiros centrais e esquinas. A presença de menores vendendo produtos em horários que deveriam ser dedicados ao estudo ou ao lazer acendeu o alerta vermelho na Secretaria de Assistência Social.
“Em nossa cidade, temos observado crianças e adolescentes nos semáforos vendendo balas e em outras atividades. Por isso, estamos intensificando esse trabalho de enfrentamento e conscientização junto à população”, explica Marilene Pereira, coordenadora de Proteção Social Especial.
A estratégia das equipes de abordagem foi focar no pedestre e no condutor. A campanha defende que a melhor forma de ajudar não é comprando a mercadoria, mas sim acionando a rede de proteção para que a família daquele menor receba o suporte socioassistencial adequado do município.
A ofensiva vai além do asfalto
O trabalho nos semáforos é apenas a ponta do iceberg de um plano de contingência mais severo desenhado para o segundo semestre de 2026. A prefeitura confirmou que o monitoramento vai mudar de tom e de horário, expandindo-se para duas frentes complexas:
- Noite Urbana: Serão realizadas blitzes integradas de surpresa em bares, restaurantes, tabacarias e distribuidoras de bebidas para flagrar a exploração de mão de obra de adolescentes na noite sinopense.
- Dia no Campo: Equipes farão busca ativa na zona rural, fiscalizando chácaras e propriedades agrícolas para erradicar o trabalho de menores no manejo de lavouras e animais.
Ao cruzar dados de vulnerabilidade, o município tenta garantir que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) saia do papel. O recado deixado nas ruas de Sinop é claro: o desenvolvimento pleno de uma criança é inegociável, e a responsabilidade de protegê-la não é apenas do poder público, mas de cada cidadão que decide abrir ou fechar o vidro do carro.
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