Indígena do Xingu aprendeu português para proteger aldeia e cultura

Nahu Kuikuro dominou o português para defender sua comunidade no Alto Xingu e preservar tradições, segundo o neto e biógrafo Yamaluí Kuikuro Mehinaku.

Na década de 1940, o líder indígena Nahu Kuikuro aprendeu a língua portuguesa para proteger a aldeia Ipatsé, no Alto Xingu. De acordo com o escritor e neto do líder, Yamaluí Kuikuro Mehinaku, autor do livro “Dono das palavras: a história do meu avô”, Nahu tornou-se o primeiro indígena da região a dominar o idioma, ação que lhe permitiu proteger a comunidade de interferências externas.

Yamaluí participa nesta semana do Acampamento Terra Livre, em Brasília, evento que reúne mais de 7 mil indígenas e inclui manifestações sobre políticas públicas e visibilidade das causas indígenas.

“Além de politicar, estamos aqui para fazer intercâmbios culturais”, afirma o escritor.

Com o domínio do português, Nahu conseguiu barrar invasões e contribuiu para a fundação do Parque Indígena do Xingu. Ele também se tornou contato confiável dos irmãos Villas-Bôas, indigenistas que exploraram a região.

Órfão de pai, Nahu aprendeu o idioma inicialmente por interesse da família em obter roupas e produtos trazidos por não indígenas. Com o tempo, passou a atuar como tradutor entre sua etnia e estrangeiros, sendo reconhecido como o “dono das palavras”.

Ao longo da vida, tornou-se poliglota, dominando as línguas das 16 etnias do Rio Xingu. Isso permitiu organizar estratégias de proteção cultural e territorial.

“As línguas não se parecem e têm diferentes origens, mas ele percebeu que isso era estratégico para o seu povo”, diz Yamaluí.

O líder indígena também influenciou a demarcação da terra em 1961, durante o governo de Jânio Quadros, e foi mestre de cantos e saberes tradicionais, sempre incentivando os netos a estudar e registrar os conhecimentos orais.

“Ele dizia: ‘eu briguei e consegui. Agora, estou deixando para vocês protegerem nosso território’”, lembra Yamaluí, destacando a importância de transformar memórias em documentos.

O neto biógrafo buscou registrar a história do avô em livro para preservar o legado e garantir que novas gerações conheçam e se inspirem na proteção da cultura e das terras indígenas.

Segundo Yamaluí, escolas na região ainda priorizam a cultura ocidental, e sua obra visa preencher a lacuna e valorizar a história de líderes indígenas como seu avô.

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