A simulação tática de cenários críticos de trauma e a aferição cronometrada de manobras de desencarceramento pautaram as pistas de testes do principal complexo de eventos da capital. O 2º Congresso Nacional de Emergência e Segurança Viária (Conesv), sediado no Parque Novo Mato Grosso, em Cuiabá, transformou a arena operacional em um laboratório de testes em tempo real para equipes de resgate de todo o país. O evento estende-se até esta sexta-feira (26 de junho), sob a coordenação do Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso (CBMMT).
As atividades práticas integram o Desafio Nacional de Salvamento Veicular e Trauma, projetado para submeter os combatentes a simulações hiper-realistas de colisões de alta energia mecânica, com passageiros presos às ferragens e amputações traumáticas.
Desafio reúne 46 equipes de 15 estados e avalia mais de 150 critérios técnicos
A competição de salvamento mobiliza o aparato técnico de 46 equipes de elite, representando corporações de bombeiros e concessionárias de rodovias de estados como São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Roraima, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Bahia, Minas Gerais, Pará, Ceará, Amapá, Rondônia, Rio Grande do Sul, além do Distrito Federal e do anfitrião, Mato Grosso.
Os competidores enfrentam estruturas de veículos retorcidos sob a supervisão rígida de um comitê de arbitragem. Conforme detalhado pelo tenente-coronel BM Fábio Luiz Figueiras de Abreu Contreiras, do Corpo de Bombeiros Militar do Rio de Janeiro (CBMERJ), a planilha de pontuação contempla cerca de 150 critérios rigorosos de engenharia de resgate, segmentados em três pilares fundamentais:
- Atendimento Médico Pré-Hospitalar (APH): Eficácia no manejo de vias aéreas, imobilizações de membros fraturados e controle de hemorragias exasanguinantes;
- Liderança e Comando de Incidente: Capacidade do comandante da linha de gerenciar riscos na cena, coordenar o cansaço da equipe e ditar a tática correta;
- Técnica Operacional de Desencarceramento: Destreza no manuseio de ferramentas hidráulicas (expansores e cortadores) e eficiência na extração da vítima sem gerar novas lesões.
O major BM Rivaldo Miranda, coordenador técnico do congresso, sustentou que o estresse induzido nas pistas é planejado para espelhar as rodovias: “Os exercícios reproduzem fielmente as situações complexas que nossas guarnições enfrentam no asfalto diário, forçando o refinamento da tomada de decisão sob forte pressão psicológica e temporal”, avaliou o major Rivaldo.
Doutrina da ‘Hora de Ouro’ limita permanência de socorristas na pista a 25 minutos
O grande balizador científico das provas é o conceito médico internacional da “Hora de Ouro” (Golden Hour). O protocolo estabelece que uma vítima politraumatizada grave possui sobrevida maximizada se receber o suporte definitivo na mesa de um centro cirúrgico hospitalar em até 60 minutos após o impacto.
Dentro dessa engenharia de sobrevivência, as equipes de bombeiros em pista dispõem de um teto cronometrado de apenas 25 minutos para estabilizar o cenário, cortar as ferragens do carro, imobilizar a coluna cervical do paciente e embarcá-lo na unidade de resgate.
A dinâmica e o cronograma de treinamento das equipes ficaram detalhados na seguinte tabela de fluxo:
| Fase da Prova Prática | Janela de Tempo Limite | Exigência Operacional Preventiva |
|---|---|---|
| Gerenciamento de Riscos | Primeiros 3 minutos | Estabilização do veículo com calços, corte de cabos de bateria e varredura contra vazamentos de combustível. |
| Acesso e Triagem Médica | Início imediato em paralelo | Entrada do socorrista no carro para proteger a cabeça da vítima e iniciar os protocolos do Stop The Bleed. |
| Extração da Vítima (Desencarceramento) | Até o 25º minuto total | Corte tático das colunas de aço (A, B ou C) e rebatimento do teto do veículo com ferramentas hidráulicas de alta pressão. |
Concessionárias e corporações utilizam arena para padronizar socorro rodoviário
A validação dos protocolos também foi defendida pelo setor privado de logística. Wilson Medeiros, diretor de operações rodoviárias, asseverou que o ambiente de simulação controlada permite às concessionárias ajustar a sintonia fina com os bombeiros militares, testando ferramentas de corte e novos sistemas de iluminação noturna. A major BM Raquel Rangel, do Corpo de Bombeiros Militar do Espírito Santo (CBMEs), complementou que a unificação nacional de procedimentos eleva diretamente a qualidade do serviço de emergência entregue ao cidadão.
O encerramento oficial do evento ocorre na tarde desta sexta-feira com a divulgação do ranking nacional de performance e a entrega das condecorações às guarnições que atingiram a excelência nos resgates em Mato Grosso.
Reportagem baseada nos manuais de arbitragem da Liga Nacional de Bombeiros (Ligabom), relatórios técnicos de APH do CBMMT e diretrizes internacionais de trauma da Organização Mundial da Saúde (OMS).
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