O Museu do Ipiranga abriu ao público, nesta semana, a exposição inédita “Liberdade: bairro plural”, que propõe uma nova leitura sobre a trajetória histórica do tradicional bairro paulistano. Com entrada gratuita, a mostra permanece em cartaz até 31 de janeiro de 2027.
Conhecida nacionalmente pela forte presença da imigração japonesa, a Liberdade teve sua formação marcada por sucessivas ocupações de diferentes grupos étnicos ao longo dos séculos. A exposição reúne objetos, fotografias, documentos, vestimentas, instrumentos musicais, mobiliário, projetos arquitetônicos e obras de arte para mostrar como diversas comunidades contribuíram para a construção da identidade cultural da região.
A curadoria é assinada pelos historiadores Paulo Garcez Marins, Mônica Raisa Schpun, Aline Montenegro Magalhães, Francisco Andrade e David Ribeiro. Organizada em três módulos, a exposição apresenta a Liberdade como um território em constante transformação, resultado de encontros culturais, permanências, deslocamentos e disputas de memória.
Segundo os curadores, a história do bairro começou antes da urbanização da cidade, em uma área ocupada pelos povos tupis que viviam no planalto paulistano. A partir do século XVIII, as primeiras ruas surgiram sobre antigos caminhos indígenas, incluindo o traçado que deu origem à atual Avenida Liberdade.
Ao longo do tempo, portugueses, africanos e afro-brasileiros, escravizados ou livres, passaram a ocupar a região. No século XIX, a presença da forca, do pelourinho, do Hospital da Santa Casa, do Cemitério dos Aflitos e da Casa de Pólvora fez com que o local fosse associado à punição e à morte, reduzindo o valor dos terrenos e favorecendo a chegada de moradores de menor renda.
Nas últimas décadas do século XIX, a região passou a receber sucessivas ondas de imigrantes, entre eles italianos, portugueses, alemães, japoneses, chineses, taiwaneses, russos, libaneses e norte-americanos. Esses grupos estabeleceram residências, templos religiosos, escolas, associações culturais, jornais e espaços de convivência.
Mais recentemente, a Liberdade também passou a acolher imigrantes e refugiados vindos da África, da América Latina e do Caribe, ampliando ainda mais a diversidade cultural do bairro.
Memória e apagamentos
A mostra também aborda episódios relacionados aos processos de apagamento da memória coletiva. Entre os temas apresentados estão a atuação e a extinção compulsória da Frente Negra Brasileira na década de 1930, a destruição do Cemitério dos Aflitos, a importância de sua capela para a memória negra e a demolição da Igreja dos Remédios, ligada ao movimento abolicionista.
O percurso ainda destaca a perseguição e expulsão de famílias japonesas durante a Segunda Guerra Mundial, além do confisco da sede da Sociedade Filarmônica Lyra, vinculada à comunidade alemã, em 1945.
Outro eixo da exposição analisa como a imagem da Liberdade passou a ser fortemente associada à cultura japonesa. De acordo com a curadoria, intervenções urbanísticas promovidas pela prefeitura a partir da década de 1970, inspiradas em elementos das tradições japonesas, consolidaram essa identidade visual e transformaram o bairro em um dos principais pontos turísticos de São Paulo.
A proposta da mostra é estimular a reflexão sobre como esse processo ampliou a visibilidade da comunidade nipo-brasileira, ao mesmo tempo em que contribuiu para reduzir a percepção sobre a participação histórica de outros grupos étnicos na formação da região.
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