Inclusão digital avança, mas exclusão ainda marca o acesso à internet no Brasil

Apesar de mais de 90% dos brasileiros utilizarem a internet, a falta de computadores e a dependência de planos móveis limitados ainda dificultam o acesso pleno à educação, ao trabalho e aos serviços públicos.

O avanço da inclusão digital no Brasil ainda convive com desigualdades que impedem milhões de pessoas de acessar a internet em condições adequadas. Embora 90,5% da população tenha utilizado a rede em 2025, a maior parte dos domicílios brasileiros (59,2%) ainda não possui computador ou tablet, segundo a PNAD-TIC 2026, pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O cenário fica evidente na comunidade do Pilar, localizada no Recife Antigo, em Pernambuco. Separada por uma rua de um dos maiores polos de tecnologia do país, o Porto Digital, a comunidade enfrenta dificuldades para acessar recursos básicos de tecnologia, apesar da proximidade com centenas de empresas do setor.

Segundo Ana Cláudia Miguel, liderança comunitária do Pilar, a antiga barreira física que separava a região foi substituída por uma exclusão tecnológica. Ela afirma que a comunidade vive um déficit de acesso à tecnologia, mesmo estando ao lado de um ambiente voltado à inovação.

O Pilar reúne cerca de 600 domicílios, com predominância de famílias negras, chefiadas por mulheres e dependentes do trabalho informal. De acordo com um levantamento realizado em 2023 com apoio da Universidade das Nações Unidas, a renda média das famílias não ultrapassa um salário mínimo e meio.

Enquanto isso, o Porto Digital reúne mais de 500 empresas de tecnologia e movimentou R$ 7,4 bilhões em 2025. O presidente da instituição, Pierre Lucena, destaca que o ecossistema reúne incubadoras, aceleradoras, universidades parceiras e uma faculdade própria voltadas à inovação.

Acesso existe, mas qualidade ainda é desigual

Os dados da PNAD-TIC mostram que 86% dos domicílios possuem internet fixa e móvel simultaneamente. Entretanto, 10,7% dependem exclusivamente da internet do celular para realizar atividades como estudar, trabalhar, acessar bancos e utilizar serviços públicos.

Para a advogada especialista em telecomunicações e direitos digitais Flávia Lefrève, o custo elevado da internet fixa e dos computadores faz com que muitas famílias recorram a planos móveis com franquias limitadas de dados. Quando esse limite é atingido, o acesso acaba comprometido, dificultando o exercício da cidadania em um cenário no qual diversos serviços públicos passaram a funcionar prioritariamente pela internet.

Segundo a especialista, o bloqueio do acesso após o fim da franquia contraria princípios previstos no Marco Civil da Internet, que restringe a suspensão do serviço apenas em casos de inadimplência.

Falta de computador afasta estudantes

A dificuldade de acesso também impacta a permanência de estudantes no ensino superior. Em 2023, moradores do Pilar passaram a contar com o programa Pilar Universitário, que oferece bolsas integrais em cursos superiores para os residentes da comunidade.

Mesmo sem o custo da mensalidade, muitos alunos enfrentam dificuldades para acompanhar as aulas devido à ausência de equipamentos adequados e à dependência da internet móvel.

Foi o caso de Eurídize Lima de Santana, de 23 anos. Após ingressar no curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas, ela interrompeu a graduação no terceiro semestre por não possuir um computador capaz de atender às exigências do curso. Atualmente, cursa Gestão Financeira na modalidade de ensino a distância utilizando apenas o celular e um plano de dados móveis.

A liderança comunitária afirma que a falta de acesso à tecnologia reduz oportunidades para os jovens e amplia situações de vulnerabilidade social.

Desigualdade preocupa instituições

O contraste entre a comunidade e o polo tecnológico também é reconhecido por representantes das instituições instaladas na região. Fabi Andrade, coordenadora de ESG do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), afirma que a ausência de moradores do Pilar entre os estudantes da instituição evidencia um desafio social ainda não superado.

Pierre Lucena também reconhece que existe uma dívida histórica relacionada à inclusão tecnológica e que ainda são necessárias ações mais estruturadas para ampliar as oportunidades para comunidades vizinhas.

Uso da internet concentra-se em redes sociais

Outro ponto destacado pela pesquisa é o perfil de utilização da internet. Entre os usuários, mais de 95% utilizaram a rede para chamadas de voz ou vídeo, mais de 90% trocaram mensagens e 84,9% acessaram redes sociais.

Flávia Lefrève alerta que muitos planos móveis continuam permitindo acesso apenas a determinados aplicativos após o fim da franquia de dados. Segundo ela, essa prática também afronta o princípio da neutralidade da rede previsto no Marco Civil da Internet, ao favorecer plataformas específicas em detrimento do acesso livre aos demais conteúdos da internet.

Em 2023, organizações da sociedade civil protocolaram um processo administrativo junto à Secretaria Nacional do Consumidor questionando o bloqueio da internet após o consumo da franquia e possíveis violações à neutralidade da rede. Até o momento da reportagem original, não havia resposta oficial sobre o andamento do procedimento.

Google Notícias
Siga o CenárioMT

Receba em primeira mão nossas notícias, tendências e exclusivas.