Os albatrozes e petréis estão entre as aves mais ameaçadas do planeta, cenário que reforça a preocupação de pesquisadores e ambientalistas lembrada nesta sexta-feira (19), durante o Dia Mundial do Albatroz. A data marca a entrada em vigor do Acordo para a Conservação de Albatrozes e Petréis, criado para ampliar a conscientização sobre a importância dessas espécies e os desafios para sua preservação.
Das 22 espécies de albatrozes existentes no mundo, cerca da metade utiliza águas brasileiras para alimentação e busca de temperaturas mais favoráveis. No entanto, a população dessas aves vem registrando queda acelerada, principalmente em razão da captura incidental na pesca de espinhel.
Essa modalidade utiliza uma linha principal com diversas linhas secundárias equipadas com anzóis iscados para atrair peixes de interesse comercial. O problema ocorre quando os albatrozes tentam capturar as iscas, ficam presos nos anzóis e acabam morrendo por afogamento.
Estimativas apontam que aproximadamente 300 mil aves marinhas são capturadas acidentalmente todos os anos pela pesca de espinhel em todo o mundo. Desse total, entre 30 mil e 40 mil são albatrozes e petréis. No Brasil, cerca de 4 mil albatrozes morrem anualmente em operações pesqueiras concentradas principalmente em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.
Segundo a bióloga Tatiana Neves, fundadora e coordenadora-geral do Projeto Albatroz, o quadro exige a adoção efetiva de medidas para reduzir as capturas. Ela destaca que diversas espécies continuam apresentando declínio populacional, apesar dos esforços de conservação realizados em diferentes países.
Projeto de conservação
Fundado em 1990, o Projeto Albatroz atua exclusivamente na preservação dessas aves marinhas. A iniciativa ganhou força após a identificação dos impactos causados pela captura acidental em embarcações pesqueiras que operavam nas regiões Sul e Sudeste do país.
Atualmente, o projeto mantém bases de pesquisa em quatro estados brasileiros. Em 2023, foi inaugurado em Cabo Frio (RJ) o primeiro Centro de Visitação e Educação Ambiental Marinha voltado ao tema, com atividades educativas, trilhas e espaços de observação em uma área de grande ocorrência de albatrozes e petréis.
Medidas de mitigação
Especialistas apontam três ações principais para reduzir a mortalidade dessas aves durante a pesca:
- Lançamento dos anzóis durante a noite;
- Uso de pesos de chumbo para acelerar o afundamento das linhas;
- Utilização do toriline, equipamento com fitas coloridas instalado na embarcação para afastar aves das iscas.
De acordo com Tatiana Neves, a aplicação simultânea dessas medidas pode reduzir em até 90% a captura incidental de albatrozes. Apesar disso, ainda existem dificuldades para verificar se as práticas são efetivamente adotadas em operações realizadas em alto-mar.
A especialista defende o fortalecimento de políticas públicas voltadas à implementação dessas ações. Atualmente, o principal instrumento nacional é o Plano de Ação Nacional para a Conservação de Albatrozes e Petréis, coordenado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em parceria com o Projeto Albatroz.
Fiscalização em alto-mar
Órgãos ambientais já realizam ações de fiscalização para verificar o cumprimento das normas. O uso de pesos padronizados nas linhas pode ser conferido ainda nos portos, mas outras medidas apresentam maior dificuldade de monitoramento.
Uma das alternativas em discussão é a ampliação do monitoramento eletrônico por meio de câmeras instaladas a bordo das embarcações. O sistema já foi testado pelo Programa Parceiros, do ICMBio, em barcos de pesca de atum em Natal (RN), com resultados apresentados recentemente em reunião internacional da Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico.
Outra ferramenta utilizada é o rastreamento por satélite das embarcações pesqueiras. A tecnologia permite verificar, por exemplo, se a largada dos anzóis ocorre após o anoitecer, conforme exigem as regras de mitigação.
Com envergadura que pode alcançar 3,5 metros, os albatrozes passam a maior parte da vida sobre o oceano e raramente são vistos em áreas costeiras. Por viverem em regiões remotas, muitas vezes longe da percepção do público, os desafios para sua conservação permanecem pouco conhecidos, apesar da gravidade das ameaças enfrentadas por essas aves marinhas.
Receba em primeira mão nossas notícias, tendências e exclusivas.