O colapso ambiental e a desregulação dos ciclos de cheias colocaram Mato Grosso em uma posição desconfortável no cenário nacional.
O estado consolidou a segunda maior perda de superfície de água de todo o território brasileiro, registrando o desaparecimento de 336 mil hectares de recursos hídricos.
O dado faz parte do levantamento “Panorama da Superfície de Água no Brasil (1985-2025)”, divulgado pela rede MapBiomas, que comparou o cenário recente com a média histórica das últimas quatro décadas.
No ranking da escassez, o território mato-grossense ficou atrás apenas de Mato Grosso do Sul, que lidera as perdas com 527 mil hectares.
O fator que une os dois estados nessa crise é o enfraquecimento da Região Hidrográfica do Paraguai. A bacia hidrográfica compartilhada operou com um volume 53,8% menor que seu padrão histórico, o que representa um déficit de 877 mil hectares de áreas cobertas por água.
O colapso crônico do ecossistema pantaneiro
A planície pantaneira amarga o pior balanço entre todos os ecossistemas do país. O espelho d’água do bioma encolheu 56% frente à média histórica de 1,56 milhão de hectares. O Pantanal se tornou o único bioma a registrar níveis insuficientes de inundação em todos os meses do ano, quebrando o padrão sazonal observado desde o início da série de monitoramento, em 1985.
Apesar da gravidade crônica, houve um leve respiro na comparação com o ano anterior, período que ficou marcado como a pior seca já documentada na região. A cobertura hídrica subiu de 506 mil para 679 mil hectares — uma reação de 34%.
Para a pesquisadora Mariana Dias, integrante da equipe Pantanal do MapBiomas, a mudança no comportamento hidrológico é estrutural e ameaça a biodiversidade local:
“A dinâmica das águas no Pantanal mudou. A década de 1980 foi marcada por grandes inundações, mas desde 2019 a região enfrenta secas prolongadas. Os períodos secos e úmidos são essenciais para a manutenção da biodiversidade do bioma.”
Cidades em alerta: O prejuízo nos municípios mato-grossenses
A retração dos mananciais afeta cerca de 45% do território nacional, o que equivale a 2.511 municípios brasileiros com saldo hídrico negativo. Entre as 15 cidades que lideram o ranking de degradação hídrica no Brasil, cinco pertencem a Mato Grosso e sofrem o impacto direto do esvaziamento das lagoas e corixos pantaneiros.
O município de Cáceres centraliza o pior cenário do estado e ocupa o segundo lugar na lista nacional de perdas, superado apenas por Corumbá (MS). A cidade registrou uma retração de 189 mil hectares de superfície de água em relação ao seu histórico.
Outros quatro municípios de Mato Grosso também aparecem na lista de maiores perdas do país:
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Poconé: -103 mil hectares;
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Barão de Melgaço: -12 mil hectares;
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Santo Antônio de Leverger: -11 mil hectares;
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Vila Bela da Santíssima Trindade: -10 mil hectares.
Respiro na Amazônia e o balanço nacional
Na porção norte do estado, a bacia amazônica apresentou um comportamento inverso, mantendo sua superfície de água 2,6% acima da média histórica. Essa recuperação, contudo, não foi uniforme: 37% das sub-bacias monitoradas na floresta ainda operam abaixo do esperado. O MapBiomas adverte que a oscilação nestes rios gera forte impacto social, já que metade das comunidades ribeirinhas da região vive a um raio de até 50 quilômetros das 12 principais artérias fluviais da Amazônia, área que concentra 61,4% das águas do país.
Em escala federal, o espelho d’água do Brasil fechou o período com 18,2 milhões de hectares, um avanço de 5,3% em relação ao ano anterior, impulsionado por cheias sazonais nos estados do Pará, Goiás e Amazonas. Apesar da melhora momentânea, o índice geral do país continua abaixo da meta de equilíbrio histórico, estimada em 18,5 millions de hectares.
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