Uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro, a Portela levará para a Marquês de Sapucaí um enredo que aborda as origens e a permanência do batuque, considerado a principal religião de matriz africana praticada no Sul do Brasil. A proposta integra o desfile do Grupo Especial e coloca em evidência personagens e narrativas pouco conhecidas da formação cultural brasileira.
O enredo O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande tem como figura central o Príncipe do Bará, identificado como Osuanlele Okizi Erupê. No Brasil, ele adotou o nome Custódio Joaquim de Almeida e se tornou uma importante liderança religiosa em Porto Alegre entre o final do século 19 e as primeiras décadas do século 20.
O batuque integra, ao lado do candomblé, da umbanda, da Jurema Sagrada, do tambor de mina e do Xangô de Pernambuco, o conjunto das principais religiões afrobrasileiras. Apesar de sua relevância histórica, essas tradições nem sempre ocupam espaço de destaque nos relatos oficiais sobre a formação do país.
Sul negro
Ao apostar nesse tema, a Portela propõe um olhar que desafia estereótipos consolidados. Dados do Censo de 2022 indicam que o Rio Grande do Sul possui, proporcionalmente, mais praticantes ou devotos de religiões de matriz africana do que estados historicamente associados a essas tradições, como Rio de Janeiro e Bahia.
Segundo a concepção artística do desfile, o objetivo é evidenciar a presença negra no Sul do Brasil e discutir a descentralização da narrativa histórica nacional. Nesse contexto, Custódio é apresentado como um mediador entre a população negra e as elites políticas gaúchas, além de guardião de saberes e liturgias africanas.
Pesquisas acadêmicas apontam que sua atuação contribuiu para dar visibilidade e legitimidade ao batuque em Porto Alegre, religião que muitas vezes permanecia restrita a bairros periféricos em razão da pressão social e do intenso fluxo migratório europeu.
Estreia no carro de som
O samba-enredo da Portela será interpretado por Zé Paulo Sierra, que faz sua estreia como voz principal da escola. O intérprete relembra a ligação familiar com a agremiação e a admiração construída desde a infância, marcada por sambas históricos da Azul e Branco de Madureira.
A composição escolhida para o desfile venceu um concurso interno que contou com dezenas de sambas inscritos. Confiante, Zé Paulo Sierra assume a missão de conduzir a escola na avenida no desfile programado para o domingo, 15 de fevereiro.
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