Juros altos pressionam dívida pública mais que gastos, dizem economistas

Especialistas afirmam que os juros elevados têm peso maior no aumento da dívida pública do que os gastos primários do governo. A avaliação contesta a tese de que o problema fiscal está nas despesas estatais.

Economistas afirmam que os juros elevados são o principal fator de pressão sobre a dívida pública brasileira, superando o impacto dos gastos primários do governo. Segundo essa avaliação, o pagamento de juros pela União alcançou cerca de R$ 1 trilhão em um ano, comprometendo recursos que poderiam ser destinados a investimentos e serviços públicos.

O debate contesta a visão predominante no mercado financeiro de que o aumento da dívida está diretamente ligado à expansão dos gastos públicos. Para pesquisadores ouvidos pela Agência Brasil, essa interpretação desconsidera o peso dos encargos financeiros na dinâmica fiscal do país.

Dados do Banco Central indicam que a dívida bruta do setor público chegou a cerca de 80% do Produto Interno Bruto (PIB), com avanço impulsionado principalmente pelos juros nominais. Em análise recente, o órgão apontou que a incorporação desses juros respondeu pela maior parte da elevação do endividamento.

Para a economista Juliane Furno, da Universidade Federal Fluminense (UFF), o componente mais relevante no crescimento da dívida não são os gastos com políticas públicas, mas sim o custo do financiamento da própria dívida.

“O déficit primário é o que menos impacta a dívida quando comparado aos juros. Eles são o principal fator de expansão do endividamento”, avalia a pesquisadora.

O tema também envolve a política monetária conduzida pelo Banco Central. Atas do Comitê de Política Monetária indicam que o nível da taxa de juros é um dos elementos centrais na trajetória da dívida, já que influencia diretamente o custo de rolagem dos títulos públicos.

Uma corrente alternativa de economistas defende que o corte dos juros seria mais eficiente para conter o avanço da dívida do que a redução de gastos sociais. Para esse grupo, despesas públicas têm efeito multiplicador na economia, estimulando renda e atividade produtiva.

A economista Maria Mello de Malta argumenta que a comparação entre o Estado e agentes privados é inadequada, já que o governo possui capacidade de emissão monetária e funções econômicas distintas.

“O gasto público impulsiona a economia, enquanto os juros elevados transferem renda ao setor financeiro e ampliam o endividamento”, afirma.

Na mesma linha, a professora Maria Lourdes Mollo, da Universidade de Brasília (UnB), avalia que o custo dos juros tem impacto social significativo e pode limitar o crescimento econômico no médio e longo prazo.

Ela destaca ainda que o combate à inflação não deve se basear apenas na restrição da demanda via juros altos, mas também em políticas que ampliem a capacidade de oferta da economia.

O debate permanece dividido entre a interpretação que prioriza o ajuste fiscal por meio de cortes de gastos e a visão que aponta os juros como principal elemento de pressão sobre a dívida pública brasileira.

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