Inadimplência afeta saúde, trabalho e relações sociais de brasileiros, aponta pesquisa

Levantamento da CNDL e SPC Brasil revela que 86% dos consumidores com dívidas em atraso sofreram impactos físicos, enquanto 95% relatam danos emocionais

A inadimplência no Brasil tem provocado consequências que vão muito além das dificuldades financeiras. Uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com a Offerwise Pesquisas, revela que o endividamento prolongado tem afetado diretamente a saúde física, emocional, a produtividade no trabalho e o convívio social de milhões de brasileiros.

Segundo o levantamento, 86% dos consumidores que possuem contas em atraso há mais de três meses afirmam ter sofrido algum impacto na saúde física em decorrência do estresse causado pelas dívidas. Entre os principais problemas relatados estão alterações no sono, mencionadas por 64% dos entrevistados, e mudanças no apetite, apontadas por 52%.

A pesquisa também mostra que a ansiedade tem levado parte dos inadimplentes a buscar formas prejudiciais de compensação emocional. Cerca de 41% admitiram descontar a tensão em vícios ou comportamentos compulsivos, como consumo de cigarros, alimentação excessiva e bebidas alcoólicas.

Impacto emocional atinge quase todos os inadimplentes

Os reflexos psicológicos aparecem de forma ainda mais intensa. O estudo aponta que 95% dos entrevistados relatam algum tipo de impacto emocional negativo relacionado às dívidas.

A preocupação constante lidera a lista dos sentimentos mais frequentes, citada por 78% dos participantes. Em seguida aparecem ansiedade (73%), angústia (65%), estresse ou irritação (65%) e sentimento de culpa (64%).

Além disso, 69% dos inadimplentes classificam seu nível de preocupação com as dívidas como alto ou muito alto, demonstrando que a pressão financeira se tornou uma fonte permanente de sofrimento para grande parte da população.

Dívidas comprometem produtividade no trabalho

As dificuldades financeiras também têm reflexos diretos no ambiente profissional. Entre os trabalhadores inadimplentes, 61% afirmam que as dívidas já afetaram seu desempenho no trabalho.

A distração e a perda de foco são os efeitos mais comuns. Cerca de 47% relatam ficar desatentos ou menos produtivos, enquanto 42% afirmam produzir menos do que o habitual. Outros 38% admitem perder a paciência com colegas de trabalho em razão da pressão emocional causada pelos débitos em aberto.

Isolamento social cresce entre os devedores

O estudo mostra ainda que os impactos financeiros afetam significativamente as relações sociais e familiares. Quase seis em cada dez inadimplentes (59%) relatam prejuízos no convívio com outras pessoas.

Entre os entrevistados, 48% disseram sentir-se mais irritados ou intolerantes com familiares e amigos. Já 58% afirmaram ter perdido completamente a vontade de sair ou participar de atividades sociais.

O isolamento é reforçado por dificuldades econômicas concretas. Segundo a pesquisa, 76% dos inadimplentes deixaram de comparecer a eventos sociais, como aniversários, casamentos e confraternizações, por não terem condições de arcar com despesas relacionadas a transporte, roupas ou presentes.

Para o presidente da CNDL, José César da Costa, o levantamento evidencia um importante custo social da inadimplência.

“A pesquisa mostra um forte custo social. As pessoas estão se isolando e rompendo vínculos familiares por vergonha ou falta de condições mínimas de convivência. Embora haja quem encontre formas de continuar consumindo, a perda da dignidade e a sensação de exclusão social ainda atingem uma parcela significativa dos brasileiros nessa situação”, destaca.

Mudanças de comportamento e busca por crédito

A entrada na inadimplência também provoca mudanças nos hábitos de consumo. De acordo com o levantamento, 37% dos entrevistados passaram a evitar a companhia de pessoas que incentivam gastos, numa tentativa de proteger o orçamento.

Entre os cortes realizados para equilibrar as finanças, destacam-se a redução dos gastos com vestuário, apontada por 34% dos participantes, e a diminuição da compra de alimentos considerados não essenciais, mencionada por 29%.

A pesquisa mostra ainda que 92% dos inadimplentes alteraram sua forma de administrar o dinheiro após o surgimento das dívidas. As medidas mais adotadas incluem maior controle dos gastos domésticos e pessoais (32%), reflexão antes das compras (30%), pesquisa de preços (29%), redução do uso do cartão de crédito (25%) e suspensão das compras parceladas (20%).

Medo de não conseguir pagar é principal preocupação

O peso emocional das dívidas é quase universal entre os entrevistados. O estudo aponta que 97% manifestam algum tipo de receio relacionado à situação financeira.

O principal temor, citado por 26%, é a incapacidade de quitar os débitos. Outros 18% afirmam ter medo de serem vistos como desonestos por familiares, amigos ou pela sociedade. Há ainda preocupações relacionadas à perda de acesso ao crédito e ao receio de serem considerados incapazes de administrar as próprias finanças.

Mesmo negativados, 80% dos entrevistados tentaram obter algum tipo de crédito no último ano, seja por meio de empréstimos, financiamentos, crediários, cheque especial ou cartões de crédito.

Google Notícias
Siga o CenárioMT

Receba em primeira mão nossas notícias, tendências e exclusivas.