Como é possível o Brasil registrar um salto histórico de 543,4% nas exportações de milho em maio e, ao mesmo tempo, o produtor de Mato Grosso trabalhar no vermelho? Essa conta intrigante dominou os debates na abertura nacional da colheita.
O evento oficial de largada das colheitadeiras aconteceu no município de Querência, polo gigante do Vale do Araguaia. A reunião de campo serviu para acender o sinal amarelo nas fazendas e traçar estratégias de sobrevivência financeira.
Para quem produz o grão em polos como Lucas do Rio Verde, Sorriso e Sinop, o início dos trabalhos nas lavouras de segunda safra traz um desafio severo. Os custos de produção dispararam e a queda nos preços globais engoliu a rentabilidade da temporada.
Preço da tonelada desaba quase pela metade no porto
Os dados oficiais divulgados pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex) revelam o tamanho do aperto financeiro. Em maio de 2026, o volume exportado pelo país atingiu 250.449,5 toneladas, esmagando as 38.928,1 toneladas enviadas ao exterior em maio do ano passado.
No entanto, a lei da oferta e da procura cobrou o seu preço no mercado internacional. O valor médio da tonelada de milho embarcada nos portos desabou 42,9%, despencando de US$ 467,1 para US$ 266,6 no intervalo de apenas um ano.
Mesmo com o tombo nos preços, a enxurrada de grãos nos navios elevou o faturamento mensal nacional para US$ 66,773 milhões. A média diária de receita deu um salto de 267,2%, saltando de US$ 865,8 mil para US$ 3,339 milhões por dia útil.
Insumos caros empurram produtor para o vermelho
O nó da questão está no custo de implantação da lavoura 2025/26. O agricultor mato-grossense comprou fertilizantes e defensivos químicos quando os preços estavam no topo, mas agora precisa vender a safrinha com o mercado de commodities desvalorizado.
Mato Grosso responde sozinho por cerca de 30% de todo o milho colhido no Brasil. Por causa desse peso gigantesco, a realidade de margens muito estreitas ou negativas observada em Querência reflete o sufoco financeiro que atinge o restante do estado.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta que a produção nacional do grão deve superar as 130 milhões de toneladas. Contudo, o tamanho real do lucro que vai sobrar no bolso de quem plantou vai depender do controle de perdas na colheita.
O peso do frete no Centro-Oeste profundo
Além do descompasso entre o custo do adubo e o preço de venda, o escoamento logístico funciona como um ralo de dinheiro. A grande distância física que separa Querência e o interior do estado dos portos de Santos (SP) e Paranaguá (PR) encarece o frete rodoviário.
O custo do óleo diesel e a falta de ferrovias integradas devoram boa parte do valor da saca antes mesmo de o grão chegar ao navio. Para se proteger contra novas quedas no segundo semestre, os produtores tentam travar valores por meio de contratos a termo.
A porção central do país enfrenta ainda a concorrência agressiva do milho produzido nos Estados Unidos no mercado externo. Por outro lado, o avanço das usinas de etanol de milho em Mato Grosso e o setor de ração animal ajudam a sustentar a demanda interna.
Em Lucas do Rio Verde e região, onde a tecnologia de precisão dita o ritmo do campo, a margem negativa exige desperdício zero na pista. Cada grão perdido na fita da plataforma da colheitadeira representa prejuízo direto no fechamento do caixa da fazenda. Em um ano de preços achatados e frete caro, a eficiência mecânica e a cautela na hora de travar os lotes comerciais serão as únicas ferramentas capazes de proteger o patrimônio do agricultor até a abertura do próximo ciclo da soja.
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*Com informações de dados estatísticos de exportação da Secex/MDIC e relatórios de mercado do Imea e da Conab.*
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