As tecnologias emergentes voltadas à agropecuária tropical têm potencial para transformar a produção no Cerrado, tornando-a mais eficiente, sustentável e resiliente às mudanças climáticas. Temas como inteligência artificial (IA), fenotipagem de plantas, veículos aéreos não tripulados (VANTs) e bioeconomia de alto valor agregado foram debatidos durante o painel “Tecnologias emergentes na agropecuária tropical”, realizado no encerramento do X Simpósio Nacional Cerrado e III Simpósio Internacional Savanas Tropicais, promovidos pela Embrapa Cerrados e pela Universidade de Brasília (UnB).
O painel reuniu especialistas brasileiros e alemães e foi moderado pelo pesquisador Edson Sano, da Embrapa Cerrados. Entre os participantes estavam Onno Müller, do Forschungszentrum Jülich, da Alemanha; Jayme Barbedo, da Embrapa Agricultura Digital; Manuel Eduardo Ferreira, da Universidade Federal de Goiás (UFG); e Valdir Florêncio da Veiga Junior, do Instituto Militar de Engenharia (IME).
Fenotipagem acelera adaptação das plantas às mudanças climáticas
O pesquisador alemão Onno Müller apresentou estudos sobre fenotipagem de alto desempenho, técnica que permite medir, de forma precisa e sem intervenções nas plantas, características físicas resultantes da interação entre genética e ambiente. As pesquisas utilizam sensores avançados para avaliar a resposta da fotossíntese sob condições de seca, temperaturas elevadas e aumento da concentração de dióxido de carbono (CO₂).
Segundo Müller, experimentos realizados inclusive no Cerrado demonstram que diferentes genótipos respondem de maneira distinta aos períodos de estiagem, informação considerada estratégica para programas de melhoramento genético. O pesquisador também destacou estudos envolvendo sistemas agrofotovoltaicos, nos quais painéis solares dividem espaço com culturas agrícolas, permitindo produzir alimentos e energia elétrica simultaneamente.
Inteligência artificial amplia eficiência no campo
O pesquisador Jayme Barbedo apresentou aplicações da inteligência artificial desenvolvidas no projeto Semear Digital, voltado principalmente para pequenos e médios produtores. Segundo ele, sensores, conectividade, qualidade dos dados e modelos de IA são os quatro pilares que sustentam a agricultura digital.
Entre as tecnologias em desenvolvimento estão drones para semeadura e reflorestamento com biocápsulas biodegradáveis, monitoramento automatizado de bovinos em confinamento, identificação de plantas daninhas e doenças em lavouras de soja, além de sistemas para previsão de safra. Em testes realizados no Mato Grosso do Sul, o monitoramento inteligente do gado possibilitou redução de cerca de 8% no consumo de ração, gerando economia significativa aos produtores.
Os resultados preliminares apontam redução de custos operacionais, eliminação de danos causados por máquinas, aumento da produtividade agrícola e pecuária, fortalecimento das cadeias produtivas e geração de novas oportunidades de trabalho nas áreas de tecnologia, drones e sensoriamento remoto.
Drones ampliam monitoramento agrícola e ambiental
O professor Manuel Eduardo Ferreira apresentou o avanço do uso de VANTs na agricultura brasileira, destacando aplicações voltadas ao monitoramento de lavouras, pastagens, recuperação ambiental e estoques de carbono. Equipamentos equipados com câmeras RGB, sensores multiespectrais, térmicos e tecnologia LIDAR permitem análises detalhadas das áreas agrícolas e ambientais.
O pesquisador explicou que a integração entre drones e imagens de satélite proporciona maior precisão na avaliação de biomassa, estresse hídrico, evapotranspiração, produtividade e recuperação de áreas degradadas, permitindo que produtores e pesquisadores acompanhem as condições das lavouras com elevado nível de detalhamento.
Bioeconomia transforma resíduos em produtos de alto valor
A bioeconomia foi o tema da apresentação do professor Valdir Florêncio da Veiga Junior. Ele defendeu o aproveitamento integral da biomassa como estratégia para reduzir desperdícios e gerar novos produtos de alto valor agregado a partir de resíduos agroindustriais.
Entre os exemplos citados estão o aproveitamento de resíduos do açaí, bacuri, buriti, castanha-do-pará e frutas como banana, abacaxi e laranja para obtenção de compostos destinados às indústrias farmacêutica, cosmética, alimentícia e têxtil. Segundo o pesquisador, a bioeconomia também deve incorporar conhecimentos tradicionais, fortalecer cooperativas e agregar renda às comunidades locais por meio do uso sustentável da biodiversidade.
Evento reforça integração entre ciência e setor produtivo
O simpósio reuniu 423 participantes e recebeu cerca de 170 trabalhos científicos, consolidando-se como um dos principais fóruns de discussão sobre o Cerrado e as savanas tropicais. Durante o encerramento, os organizadores destacaram a importância da integração entre instituições públicas, privadas e produtores rurais para transformar as tecnologias apresentadas em soluções aplicáveis no campo.
Para o presidente do evento, Adriano Veiga, a principal mensagem deixada pelo encontro é que a produção agropecuária pode crescer de forma sustentável quando apoiada por pesquisa, inovação e integração tecnológica. Já o chefe-geral da Embrapa Cerrados, Jorge Werneck, ressaltou que o grande desafio agora é levar esse conhecimento até os produtores rurais, transformando os avanços científicos em benefícios concretos para o desenvolvimento do Cerrado.
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