Nova sede da UPC eterniza legado de veterinária e amplia cuidado com os animais em Lucas do Rio Verde

Com estrutura quatro vezes maior, dois centros cirúrgicos e capacidade ampliada de atendimento, nova sede da Unidade Permanente de Castração marca avanço histórico para a causa animal no município e homenageia a médica veterinária Érica Fernanda de Jesus Fernandes

A manhã desta quarta-feira (27) reforçou a luta da causa animal em Lucas do Rio Verde com a inauguração da nova sede da Unidade Permanente de Castração de Cães e Gatos (UPC), instalada na Rua Londrina, no bairro Menino Deus. Mas a cerimônia foi além da entrega de uma estrutura pública. Ela carregou memória, saudade e reconhecimento. A nova unidade passa a se chamar Unidade Permanente de Castração Doutora Érica Fernanda de Jesus Fernandes, eternizando o nome da médica veterinária que dedicou sua vida à causa animal e faleceu tragicamente em um acidente na BR-163, em agosto de 2022.

A homenagem reuniu familiares vindos de Cuiabá, incluindo a mãe da veterinária, Neuzalina Maria de Jesus, que acompanhou emocionada cada detalhe da inauguração. Em meio às lembranças da filha, ela falou sobre o orgulho de ver o nome de Érica perpetuado em um espaço voltado justamente à missão que sempre moveu sua trajetória.

“Eu só tenho a agradecer. Ao prefeito, ao secretário Felipe, aos vereadores e à população de Lucas do Rio Verde. Minha filha dedicou a vida dela à causa animal. Ela atendia os animaizinhos com amor. E agora o nome dela vai ficar eternizado aqui”, declarou.

A fala carregava o peso da perda, mas também a serenidade de quem reconhece que o legado continua vivo. “Ela foi uma filha exemplar. Não é porque morreu, não. Ela foi exemplar mesmo. Quem conheceu ela sabe disso”, completou.

Estrutura maior para uma demanda que não para de crescer

A nova sede nasce como resposta a uma realidade que já ultrapassava os limites da antiga unidade, instalada em uma estrutura de contêiner no bairro Tessele Júnior. Projetada inicialmente para realizar entre 400 e 500 castrações anuais, a antiga UPC chegou a registrar, somente em 2025, cerca de 2 mil procedimentos.

Agora, o novo espaço conta com dois centros cirúrgicos, salas de atendimento, coleta e espera, além de ambientes voltados ao pré e pós-operatório, oferecendo mais conforto e segurança tanto para os animais quanto para os tutores.

O secretário de Agricultura e Meio Ambiente, Felipe Palis, destacou que a mudança representa um novo capítulo para a política pública de proteção animal em Lucas do Rio Verde.

“São mais de 6 mil castrações e mais de 4 mil microchipagens realizadas desde o início do programa. A gente já entendia que precisava de um espaço maior, compatível com a real demanda do município. Hoje entregamos uma estrutura quatro vezes maior que a anterior”, afirmou.

Felipe também fez questão de reconhecer o trabalho coletivo dos servidores, protetores independentes e da equipe da UPC, chamando os profissionais da unidade à frente durante a solenidade, em um gesto de valorização pública do trabalho realizado diariamente.

Em um dos momentos mais emocionantes da cerimônia, o secretário voltou-se à família da veterinária homenageada.

“Tenho certeza de que esse espaço vai guardar a memória e o legado da doutora Érica, que sempre foi conhecida pelo amor e comprometimento com a causa animal.”

Castrar é responsabilidade, dizem protetores

Entre os presentes estava a presidente em exercício da SOS Animais, Arlete Engelbrecht, que definiu a inauguração como um marco para a cidade e para as protetoras que enfrentam diariamente o abandono de cães e gatos.

“Castrar não é só um ato de amor, é um ato de responsabilidade”, afirmou.

Segundo ela, a ampliação da capacidade de atendimento deve ajudar a reduzir a fila reprimida de castrações, especialmente entre animais resgatados das ruas.

“Todos os dias as protetoras recolhem animais abandonados, castram e devolvem. O sofrimento é muito grande, principalmente das fêmeas que vivem nas ruas. Faltava vaga. Agora acredito que vamos conseguir ampliar muito esse trabalho.”

Arlete também reforçou a importância da participação da sociedade, orientando a população a buscar ajuda junto às entidades quando encontrar animais abandonados ou feridos.

Política pública e conscientização

Durante a inauguração, o prefeito Miguel Vaz destacou que o município avança em uma política pública permanente voltada à causa animal, mas alertou que o poder público não consegue enfrentar sozinho o problema do abandono.

“Nós precisamos conscientizar as pessoas. Não adianta adotar ou comprar um animal e deixá-lo solto na rua. O poder público sozinho não dá conta de tudo”, afirmou.

Segundo ele, além da nova estrutura física e dos profissionais que atuarão na unidade, a prefeitura também disponibilizará veículo para auxiliar no recolhimento de animais e no transporte daqueles cujos tutores não consigam levá-los até a UPC.

O prefeito também reconheceu o papel fundamental das ONGs e protetores independentes na rede de proteção animal construída no município.

Lucas do Rio Verde como referência em Mato Grosso

A inauguração chamou atenção inclusive de representantes estaduais da causa animal. Presidente do Grupo de Trabalho da Causa Animal da Assembleia Legislativa de Mato Grosso e vice-presidente da Comissão de Defesa dos Direitos dos Animais da OAB-MT, o advogado Nilson Portela Ferreira afirmou que saiu de Cuiabá durante a madrugada para acompanhar o evento.

“Isso aqui é um marco não apenas para Lucas do Rio Verde, mas para todo o estado de Mato Grosso”, declarou.

Segundo ele, Lucas se posiciona como referência estadual ao implantar uma unidade permanente de castração estruturada e com capacidade ampliada de atendimento.

Nilson também destacou avanços recentes no estado, como a criação do programa Ser Família PET, que permitirá aos municípios acessarem recursos estaduais voltados exclusivamente à causa animal.

“Mato Grosso ainda está dando os primeiros passos nessa área, mas Lucas do Rio Verde sai na frente.”

O desafio de manter a estrutura

O presidente da Câmara Municipal, Airton Callai, também ressaltou a importância do envolvimento coletivo na manutenção das políticas públicas voltadas aos animais.

“O mais difícil não é fazer o prédio. O difícil é manter a estrutura funcionando todos os dias”, comentou.

Ele ainda reforçou a necessidade de apoio financeiro às ONGs e protetores independentes, reconhecendo o trabalho realizado voluntariamente por quem atua na linha de frente do resgate e acolhimento de animais.

Enquanto a solenidade chegava ao fim, servidores recebiam visitantes nos corredores ainda cheirando a tinta nova. Em cada sala recém-inaugurada, existia mais do que equipamentos ou paredes ampliadas. Existia o sentimento de que a causa animal, durante muitos anos sustentada quase exclusivamente pela dedicação de voluntários, passa a ocupar um espaço cada vez mais sólido dentro das políticas públicas do município.

E, no centro dessa história, o nome de Érica Fernandes permanece vivo — agora gravado na fachada de um lugar criado exatamente para continuar aquilo que ela mais amava fazer: cuidar dos animais.

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