Entre a boleia e o risco: saúde de caminhoneiros acende alerta em Mato Grosso

Alimentação irregular, longas jornadas ao volante e pouco tempo para descanso. A rotina dos caminhoneiros é essencial para manter a economia do país em movimento, mas os números revelam que esse esforço diário tem cobrado um preço alto da saúde desses profissionais. Levantamento realizado com mais de 700 motoristas durante as duas edições do projeto Parada Legal, promovido pela Nova Rota do Oeste em 2025, nos municípios de Rondonópolis e Sorriso-MT, expôs um cenário preocupante.

De acordo com os dados, quase 60% dos caminhoneiros avaliados apresentaram algum grau de obesidade, enquanto 31,9% estavam com sobrepeso. Os números acendem um sinal de alerta para a saúde dos profissionais da boleia e, consequentemente, para a segurança nas rodovias.

Outro dado que chama atenção está relacionado aos níveis de glicemia. Mais de 60% dos participantes apresentaram resultados compatíveis com pré-diabetes e receberam orientações e encaminhamentos clínicos durante as triagens. Já 25% relataram diagnóstico de diabetes, condição que, quando não acompanhada adequadamente, pode comprometer reflexos, atenção e disposição ao volante.

Para o médico do trabalho Cyro Jorge Cafure Bezerra, os hábitos comuns à profissão contribuem para o avanço de doenças silenciosas. Sedentarismo, alimentação desequilibrada, sono irregular e a falta de exercícios físicos favorecem o surgimento de problemas como diabetes, hipertensão e colesterol elevado, aumentando o risco de infartos e derrames. “Problemas de saúde mal controlados podem comprometer a atenção, a concentração e o tempo de reação do condutor, fatores essenciais para uma direção segura. Por isso, o cuidado com a saúde não é apenas uma questão individual, mas também um ponto fundamental para a prevenção de acidentes”, alerta.

Entre as principais recomendações, o médico destaca a adoção de uma alimentação mais equilibrada, com redução no consumo de gorduras e atenção especial ao sal, que deve ser limitado a até seis gramas por dia, conforme orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS). Manter o corpo em movimento também é fundamental. Alongamentos durante as paradas de descanso e a inclusão de alguma atividade física na rotina ajudam a minimizar os impactos do sedentarismo.

A qualidade do sono aparece como outro fator decisivo. Dormir de forma contínua por, no mínimo, seis horas diárias contribui para melhorar os reflexos, a atenção e a segurança na condução do veículo. O médico também chamou atenção para o tabagismo: 16% dos caminhoneiros atendidos se declararam fumantes, hábito que, associado ao sedentarismo, eleva significativamente o risco de doenças cardiovasculares e respiratórias. Ele reforça ainda que o uso de estimulantes para inibir o sono é proibido e pode provocar eventos graves, como infartos.

O Parada Legal é um projeto de responsabilidade social da Nova Rota do Oeste que leva serviços gratuitos de saúde aos caminhoneiros que trafegam pela BR-163/MT. Desde 2014, a iniciativa já beneficiou diretamente mais de 5 mil motoristas, oferecendo aferição de peso e altura, cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC), medição da pressão arterial e glicemia, testes rápidos para Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), vacinação, avaliação da acuidade visual, orientação nutricional, apoio emocional e cuidados com a saúde bucal.

Mais do que números, os dados revelam a urgência de olhar com atenção para quem passa a vida conectando cidades, estados e mercados — e que também precisa parar, respirar e cuidar de si.

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