A literatura produzida longe dos grandes centros ganhou espaço na quarta edição do Festival Literário de Paracatu (Fliparacatu), em Minas Gerais. Pesquisadora, jornalista e escritora, Calila das Mercês integra a curadoria do evento ao lado de Sérgio Abranches e Afonso Borges, idealizador e presidente do festival.
Realizado em Paracatu, cidade localizada a cerca de 500 quilômetros de Belo Horizonte, o festival tem como tema Sertão em Nós: Meu Lugar no Mundo. A proposta estabelece um diálogo entre o geógrafo Milton Santos, cujo centenário foi celebrado em maio, e o escritor João Guimarães Rosa, autor de Grande Sertão: Veredas, que completa 70 anos em 2026.
Calila mantém uma relação próxima com a obra de Guimarães Rosa. Ela define Grande Sertão como “fabuloso” e afirma ter ficado muito emocionada com Campo Geral, publicado em 1956. A escritora também destaca a importância de Milton Santos, seu conterrâneo baiano, para as discussões sobre território e identidade.
“A gente está homenageando também meu conterrâneo, que é o Milton Santos, que marcou sua existência, no Brasil e no mundo, trazendo discussões que nos são muito caras. Sobre a questão do nosso lugar, mas também sobre como a gente pode pensar o território sem engessar”.
Para Calila, os festivais literários realizados no interior podem valorizar pensamentos e produções que surgem nos próprios territórios. Ela já participou da organização de eventos em Cachoeira, na Bahia, e Cavalcante, em Goiás.
A escritora, porém, alerta para a necessidade de preservar a autonomia desses encontros. Segundo ela, há o risco de que festivais sejam transformados em espaços políticos ou tenham seus rumos determinados por grupos específicos. Para Calila, é importante reconhecer a produção cultural de cada lugar sem estabelecer que o pensamento precise chegar dos grandes centros.
“Acho que o grande desafio é a gente produzir uma ideia de que o pensamento não chega de fora. Ele não, necessariamente, chega dos grandes centros. Eu acho que Paracatu é um lugar que produz pensamento, que tem trazido consigo também uma identidade, um jeito muito daqui de fazer acontecer”.
Na avaliação da escritora, o Fliparacatu cria oportunidades para encontros entre pessoas de diferentes origens e sotaques, além de estimular conversas inesperadas. Entre os convidados desta edição estão Mia Couto, Alê Santos, Bruna Lombardi, Eliana Alves Cruz, Jeferson Tenório, Jeovanna Vieira, Paulliny Tort e Renato Nogueira.
Livro nasceu em meio a deslocamentos
Calila das Mercês lançou em julho seu primeiro romance, Nódoa, publicado pela Companhia das Letras. A obra se soma aos livros de poesia e contos já publicados pela escritora.
Segundo Calila, o romance foi escrito durante diferentes deslocamentos. Ônibus, rodoviárias, bares e mudanças de casa fizeram parte do processo de criação. A experiência também esteve relacionada a períodos de condições mais precárias e outros de maior tranquilidade.
“Eu escrevi dentro do ônibus, eu escrevi em uma rodoviária, escrevi no barulho, escrevi com mudança. Mudanças necessárias, mudanças de casa. Condições mais precárias, condições mais tranquilas. É um livro sobre movimento e eu escrevo tudo me movendo”, lembra.
Durante esse processo, a escritora esteve quatro vezes às margens do rio São Francisco e visitou o maior cajueiro do mundo. As viagens, de acordo com ela, foram importantes para estabelecer contato com diferentes espaços de natureza e urbanidade.
Essa relação com os lugares também influenciou o desenvolvimento da escrita, marcada por criatividade, experimentação e uma abordagem sensorial.
Uma obra marcada por diferentes vozes
Nódoa é narrado por Regina e Lurdes Maria e apresenta mulheres que permanecem em movimento sem perder os vínculos entre si. A construção do romance também explora a própria materialidade da escrita, utilizando maiúsculas e minúsculas para caracterizar diferentes personagens e formas de comunicação.
Entre essas personagens estão uma mulher que não sabe ler nem escrever, outra que fala muito baixo por vergonha e uma artista plástica. A escolha gráfica ajuda a representar vozes, silêncios, gestos e experiências distintas.
Calila explica que a editoração e o uso do papel foram incorporados ao projeto literário para reforçar essas diferenças. A oralidade, o corpo e os silêncios também ocupam espaço na narrativa.
“Eu queria usar o papel e também essa parte da editoração, da parte gráfica, para elucidar esse trabalho das maiúsculas e minúsculas, de quem fala em terceira pessoa, de quem fala abaixo, de quem só tem a oralidade como fonte de comunicação e o gesto e o corpo e os silêncios. Então, uso muito silêncio nas páginas”.
Ao longo do livro, as palavras também formam desenhos e contribuem para uma experiência de leitura que vai além do texto convencional. A proposta combina linguagem, elementos gráficos, oralidade e sensorialidade.
O próprio título da obra remete às marcas deixadas pelas experiências. Para Calila, uma nódoa pode lembrar momentos afetivos, como uma bebida derramada ou uma mancha de dendê associada a uma refeição preparada por alguém querido. Essas marcas, segundo a escritora, permanecem como parte da memória.
“Às vezes a nódoa lembra a gente de um suco que caiu na roupa, um suco que alguém que a gente ama fez. Às vezes uma mancha de dendê que não saiu, mas que foi de um caruru, aquela avó que nem está ali mais. Então, eu acho que as nódoas também mancham, e deixam marcas que ficam e que são importantes”.
Fliparacatu 2026
A quarta edição do Festival Literário Internacional de Paracatu ocorre de 26 a 30 de agosto de 2026, no Centro Histórico de Paracatu. A programação tem entrada gratuita.
Crédito das informações: Agência Brasil.
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