Documentário Aqui Não Entra Luz expõe segregação nos quartos de empregada

Longa-metragem dirigido por Karol Maia reúne relatos de mulheres que trabalharam como empregadas domésticas e discute a herança social e arquitetônica da escravidão no Brasil.

O documentário Aqui Não Entra Luz, dirigido pela cineasta paulistana Karol Maia, estreou nos cinemas abordando a segregação presente nos chamados quartos de empregada em residências brasileiras. O longa acompanha histórias de mulheres que trabalharam como empregadas domésticas em diferentes estados do país e discute como a arquitetura das casas reflete desigualdades históricas.

Segundo Karol Maia, os quartos destinados às trabalhadoras domésticas costumam ficar próximos à área de serviço e à cozinha, em espaços menores e separados das demais áreas da residência. A diretora afirma que essa divisão evidencia uma lógica social construída ao longo de décadas.

O filme tem forte influência das experiências pessoais da cineasta. A mãe de Karol, Miriam Mendes, é uma das personagens do documentário e também inspira a narrativa construída no roteiro. Durante a infância, a diretora acompanhava a mãe no trabalho em casas de famílias da capital paulista.

Karol Maia relata que o pai trabalhava dando aulas de música em casa, enquanto a mãe atuava como empregada doméstica em bairros nobres e também na região onde a família morava, na zona leste de São Paulo. Para a cineasta, a presença desse tipo de contratação até em famílias de baixa renda demonstra como o trabalho doméstico ainda é historicamente desvalorizado no Brasil.

Relatos de trabalhadoras

Entre as personagens do documentário está Maria do Rosário Rodrigues de Jesus, conhecida como Rosarinha, natural de Minas Gerais. Ela conta que deixou a cidade natal ainda jovem após promessas de estudo e trabalho que nunca foram cumpridas.

Rosarinha relembra que começou a trabalhar cedo para ajudar no sustento da família. Atualmente vivendo em Belo Horizonte, ela continua atuando como empregada doméstica, mas afirma que conseguiu construir uma trajetória marcada pela conquista da casa própria e pela criação da filha.

No filme, Rosarinha também reflete sobre os desafios enfrentados ao longo da vida e sobre o desejo de alcançar a aposentadoria para dedicar mais tempo à família.

Herança da escravidão

As pesquisas para o documentário começaram em 2017. Karol Maia concentrou parte da investigação em estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Maranhão, regiões que receberam grande quantidade de mão de obra escravizada durante o período colonial.

A equipe visitou antigas Casas Grandes e Senzalas abertas ao público e observou diferenças na preservação desses espaços históricos. Segundo a diretora, áreas ligadas aos escravizados apresentavam menor conservação e materiais mais simples em comparação aos ambientes principais das propriedades.

Karol Maia também critica a ausência de políticas públicas voltadas à preservação da memória relacionada à escravidão e afirma que elementos presentes nas antigas construções ainda influenciam a arquitetura moderna, como entradas e elevadores de serviço e os quartos destinados às trabalhadoras domésticas.

Projeto na Câmara

No dia 22 de abril, a Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei Complementar 18/25, que proíbe o uso de expressões como “quarto de empregada” e “dependência de empregada” em projetos arquitetônicos.

A proposta é de autoria da deputada Denise Pessôa. Segundo a relatora Professora Marcivania, a mudança representa uma reparação histórica e busca combater práticas associadas à herança da servidão no país.

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