Três gerações de uma mesma família participaram do cortejo da tradicional Fincada de Mastro, manifestação cultural ligada às bandas de congo do Espírito Santo. O desfile ocorreu em Aracruz, no litoral capixaba, durante a 6ª edição da Teia Nacional dos Pontos de Cultura.
A jovem Maju Santos, de 27 anos, cresceu cercada pela musicalidade do congo capixaba. Filha da regente Beatriz dos Santos Rego e neta do Mestre Daniel Vieira dos Santos, ela afirma que o contato com a tradição começou antes mesmo do nascimento.
“Minha mãe participava das fincadas de mastro enquanto estava grávida de mim. Cresci nesse ambiente e desenvolvi uma ligação muito forte com a música”, relatou.
A Fincada de Mastro é uma celebração tradicional das bandas de congo em homenagem a São Benedito. Segundo a tradição popular, escravizados sobreviveram a um naufrágio após se agarrarem ao mastro de um navio e fazerem pedidos ao santo.
O ritual reúne música, cortejos e o levantamento de um mastro decorado em espaço público, que permanece no local durante cerca de um mês antes de ser retirado em nova celebração.
Além dos grupos Banda de Congo Mestre Honório e Madalenas do Jucu, o cortejo contou com a participação de outras manifestações culturais da região, incluindo os Guerreiros Tupinikim, da aldeia Irajá. A apresentação mobilizou moradores do bairro de Santa Cruz, que acompanharam o desfile pelas ruas da cidade.
Participação feminina fortalece tradição
À frente das Madalenas do Jucu, Beatriz dos Santos Rego destacou a importância da presença feminina no congo. O grupo foi criado em 2021 a partir de um antigo desejo da Banda de Congo Mestre Honório de formar uma formação exclusivamente feminina.
Com quatro décadas de atuação nas bandas de congo, Beatriz afirma que a cultura popular resiste graças ao envolvimento das comunidades e ao apoio obtido por meio de editais e incentivos culturais.
“A banda de congo representa a nossa identidade e nossa história. É uma tradição que atravessa gerações”, afirmou.
Herança cultural preservada pela família
Hoje, Maju atua como regente das Madalenas do Jucu e domina todos os instrumentos utilizados nas apresentações. Segundo ela, o aprendizado começou ainda na infância, acompanhando os festejos ao lado da mãe.
O Mestre Daniel Vieira dos Santos, de 85 anos, segue participando das celebrações e mantém viva a tradição da fabricação artesanal de tambores. Ele afirma já ter produzido mais de 2,5 mil instrumentos ao longo da vida.
“É uma alegria muito grande ver nossa família mantendo essa cultura viva”, disse o mestre durante o cortejo.
Segundo ele, o envolvimento com o congo começou ainda na juventude, em Vila Velha, quando participava das rodas de tambor ao lado de amigos. Décadas depois, tornou-se referência na preservação da manifestação cultural no Espírito Santo.
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