Belén concorre a prêmio e reacende debate sobre aborto legal na Argentina

Filme dirigido por Dolores Fonzi retrata um caso real que marcou a luta pelos direitos reprodutivos na Argentina. Produção disputa o Prêmio Platino Xcaret e levanta discussões sobre acesso ao aborto legal no país.

O filme Belén, dirigido por Dolores Fonzi, disputa o prêmio de Melhor Filme no Prêmio Platino Xcaret, considerado uma das principais premiações do cinema ibero-americano. A produção aborda um caso real que se tornou símbolo da luta pelo aborto legal na Argentina.

A trama acompanha a história de uma jovem de 20 anos, moradora do interior argentino, que foi presa após sofrer um aborto espontâneo e ser acusada de homicídio. A mulher permaneceu encarcerada por quase dois anos até que mobilizações lideradas por movimentos feministas pressionaram pela revisão judicial do caso e pela sua libertação.

Dez anos após a libertação da jovem, identificada apenas como Belén para preservar sua identidade, o longa reacende debates sobre direitos sexuais e reprodutivos na Argentina.

Durante entrevista concedida em Cancún, no México, Dolores Fonzi afirmou que mulheres ainda enfrentam dificuldades para acessar o aborto legal no país, apesar da legislação vigente. Segundo a cineasta, cortes orçamentários e a cobrança por medicamentos dificultam o atendimento principalmente para mulheres de baixa renda.

“Um aborto medicamentoso custa quase 20% de um salário mínimo e está sendo cobrado. As mulheres pobres ainda não têm acesso”, declarou a diretora.

Fonzi também criticou medidas que, segundo ela, criam obstáculos para o acesso ao procedimento legalizado. Apesar disso, ressaltou que não há tentativa oficial de revogar a legislação argentina sobre o tema.

A produtora Letícia Cristi destacou que o filme tem sido exibido em escolas, universidades, centros comunitários e até prisões. Segundo ela, o interesse pelo debate tem alcançado públicos cada vez mais jovens.

Na quinta-feira (8), a equipe de Belén recebeu o Prêmio Platino de Cinema e Educação em Valores, reconhecimento destinado a produções com impacto social.

O longa também apresenta críticas ao sistema judicial argentino ao retratar falhas no processo envolvendo a jovem. De acordo com Cristi, a história evidencia problemas estruturais e vieses presentes nas decisões judiciais relacionadas a mulheres em situação de vulnerabilidade.

Organizações internacionais de direitos humanos participaram da mobilização pelo caso na época, entre elas a Anistia Internacional.

Dados de um estudo publicado pela revista científica Lancet Global Health, frequentemente utilizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), apontam que a taxa de aborto na América Latina e Caribe foi de 39 casos por mil mulheres entre 15 e 49 anos no período entre 2015 e 2019. O levantamento também indica que países com leis mais restritivas registravam maior número de abortos relacionados a gestações não planejadas.

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