Histórias de superação e compromisso social marcam a trajetória de artistas que integram o tradicional Baile do Menino Deus, auto de Natal apresentado anualmente no Recife. Vindos de áreas periféricas, eles levam para o palco vivências que ultrapassam o espetáculo e se refletem em ações permanentes dentro de suas comunidades.
Um desses exemplos é o percussionista Bob Brown, que na infância ajudava a família recolhendo materiais recicláveis no Morro da Conceição. Anos depois, transformou sons do cotidiano em música e fez da percussão um caminho profissional. A virada ocorreu ao participar de um projeto comunitário idealizado pelo músico Lucas dos Prazeres, referência cultural do território.
Instrumentos feitos de materiais simples, oficinas abertas e ensino baseado na prática cultural fazem parte da metodologia adotada por Lucas em iniciativas como a Orquestra dos Prazeres e o ponto de cultura Negras Raízes. Mais do que formar músicos, o objetivo é fortalecer a cidadania e o senso crítico de crianças e adolescentes.
No palco do auto natalino, Lucas interpreta um anjo inspirado nas tradições do cavalo marinho e do coco de roda, linguagens que remetem às manifestações populares do Quilombo dos Prazeres. A liberdade criativa concedida pela direção do espetáculo permite que essas referências ganhem visibilidade diante do grande público.
Outra expressão artística presente no espetáculo vem do hip hop. O músico e dançarino Okado do Canal desenvolve atividades de break e cultura urbana na Favela do Canal, no bairro do Arruda. O projeto Lado Beco reúne crianças e adolescentes em aulas que unem dança, convivência comunitária e consciência ambiental.
As ações têm reflexos diretos na vida dos participantes. Crianças envolvidas nas atividades passam a frequentar batalhas de break e a participar da criação de figurinos e cenários feitos com materiais recicláveis. A arte se torna ferramenta de pertencimento e transformação social.
O trabalho social também se estende ao teatro. O ator Arilson Lopes, intérprete do personagem Mateus no auto de Natal, atua há anos como palhaço hospitalar em Pernambuco. A experiência nos hospitais influencia sua atuação artística, marcada pela interação direta com o público e pela sensibilidade às emoções das crianças.
Já a cantora Sue Araújo concilia a carreira como solista do espetáculo com projetos educacionais em uma escola pública da periferia. Ao levar música para a sala de aula, ela busca ampliar horizontes e estimular sonhos, especialmente entre alunos do ensino fundamental.
Reunidos no mesmo espetáculo, esses artistas mostram que o auto de Natal vai além da encenação religiosa. Ele se consolida como espaço de valorização cultural e como vitrine de iniciativas que, longe dos holofotes, seguem transformando realidades na periferia do Recife.
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