Policiais civis e militares em serviço foram responsáveis por 142 mortes no primeiro trimestre deste ano no estado de São Paulo. O número representa um aumento de cinco casos em comparação ao mesmo período de 2025, segundo dados do Ministério Público paulista.
O levantamento reúne informações sobre mortes decorrentes de intervenção policial e indica que, ao considerar também policiais fora de serviço, os registros passaram de 29 para 33 vítimas no período analisado.
Os dados são consolidados pelo Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp), que recebe informações das polícias Civil e Militar conforme determinações legais e normas da Secretaria de Segurança Pública.
No recorte exclusivo da Polícia Militar em serviço, o número se manteve em 134 mortes no primeiro trimestre, repetindo o patamar do ano anterior. Já entre policiais militares fora de serviço, houve alta de 29 para 32 casos.
Especialistas e órgãos de controle apontam preocupação com o nível elevado de mortes em ações policiais. Para o ouvidor da Polícia de São Paulo, Mauro Caseri, uma política de segurança eficiente deve priorizar a preservação de vidas e a redução da violência.
Ele avalia que fatores como ausência de políticas estruturadas de saúde mental, falhas no controle do uso da força e condições de trabalho desgastantes contribuem para a manutenção do cenário atual.
Caseri também relaciona a situação a problemas como baixa remuneração, sobrecarga de trabalho e atividades extras que ampliam o desgaste físico e psicológico dos agentes.
“Cria uma polícia do confronto. Precisamos de uma polícia que resolva conflitos, não de uma polícia que crie conflitos”, afirmou o ouvidor.
O presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, Adilson Santiago, classifica o cenário como uma crise na segurança pública, destacando o aumento da letalidade e denúncias de violência policial.
Segundo ele, há uma concentração dos impactos em determinados grupos sociais, com maior incidência em populações negras e periféricas, o que reforça desigualdades já existentes.
O relatório também mostra variação histórica nos números. Entre 2019 e 2022, houve redução nas mortes em ações policiais em serviço, passando de 720 para 262 casos.
A partir de 2023, porém, os registros voltaram a subir. No primeiro ano da atual gestão, foram 357 mortes, seguidas de 653 em 2024 e 703 no ano seguinte, segundo os dados oficiais.
“O aumento da letalidade policial não pode ser tratado como algo natural da atividade. Os dados mostram um problema estrutural que precisa ser enfrentado”, afirmou Caseri.
Entre as medidas defendidas por especialistas estão a melhoria das condições de trabalho, ampliação de treinamento, uso de câmeras corporais, revisão de protocolos e maior transparência nas investigações.
O ouvidor também defende investimentos em saúde mental para policiais, destacando que o desgaste emocional e a pressão cotidiana impactam diretamente a atuação das forças de segurança.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública informou que todas as ocorrências são investigadas e acompanhadas por órgãos de controle, incluindo corregedorias, Ministério Público e Judiciário.
A pasta também afirma que tem ampliado o uso de tecnologias, equipamentos de menor potencial ofensivo e programas de capacitação, além da expansão de câmeras corporais e sistemas de monitoramento integrados no estado.
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