Pesquisas brasileiras apontam caminhos para reduzir emissões e fortalecer a sustentabilidade no agro

Estudos apresentados na Holanda mostram avanços que vão do uso de biodiesel no transporte marítimo à criação de ferramentas para medir a pegada de carbono da pecuária brasileira

Pesquisadores brasileiros levaram ao cenário internacional novas evidências sobre como a inovação e o aprimoramento das métricas ambientais podem contribuir para uma produção agropecuária mais sustentável. Os trabalhos foram apresentados durante o SETAC Europe 36th Annual Meeting, realizado entre os dias 17 e 21 de maio de 2026, em Maastricht, na Holanda, um dos principais eventos mundiais voltados à ciência ambiental.

Os estudos abordaram diferentes desafios relacionados às mudanças climáticas, incluindo alternativas para reduzir emissões de gases de efeito estufa no transporte marítimo, reaproveitamento de resíduos industriais na agricultura, aprimoramento de avaliações ambientais em sistemas produtivos tropicais e novas ferramentas para medir a pegada de carbono da pecuária brasileira.

Biodiesel brasileiro ganha espaço na descarbonização dos navios

Um dos destaques foi a avaliação do potencial do biodiesel produzido no Brasil como combustível de baixo carbono para o transporte marítimo internacional. A pesquisa está alinhada às metas da Organização Marítima Internacional (IMO), que busca reduzir significativamente as emissões do setor naval nas próximas décadas.

Atualmente, os navios são responsáveis por cerca de 3% das emissões globais de gases de efeito estufa. O estudo analisou principalmente o biodiesel produzido a partir da soja e do sebo bovino, matérias-primas que representam a maior parte da produção nacional. Considerando todo o ciclo de vida do combustível, desde a produção até sua utilização nos motores, os pesquisadores concluíram que o biodiesel apresenta emissões consideravelmente menores do que o óleo combustível pesado tradicionalmente utilizado na navegação.

A pesquisa identificou, porém, um fator relevante para ampliar ainda mais os ganhos ambientais: o metanol empregado no processo produtivo. Segundo os autores, sua substituição por etanol poderia reduzir ainda mais a pegada de carbono do combustível.

Além dos benefícios ambientais, o trabalho destaca que o Brasil já possui infraestrutura consolidada e capacidade produtiva suficiente para ampliar a participação do biodiesel na transição energética do setor marítimo.

Resíduo siderúrgico pode ajudar a reduzir emissões no milho

Outro estudo avaliou o uso do silicato de cálcio e magnésio (SCM), material obtido a partir da escória da indústria do aço, como alternativa ao calcário agrícola na correção da acidez do solo em lavouras de milho de Mato Grosso.

A proposta segue os princípios da economia circular, transformando resíduos industriais em insumos agrícolas. Os pesquisadores compararam diferentes cenários de utilização do material e observaram uma redução gradual das emissões de gases de efeito estufa à medida que aumentava a participação do SCM.

Quando o silicato substituiu totalmente o calcário convencional, a redução das emissões alcançou aproximadamente 15%. O desempenho agronômico foi semelhante ao do corretivo tradicional, demonstrando potencial para conciliar produtividade e menor impacto ambiental.

Apesar dos resultados positivos, os pesquisadores recomendam estudos complementares para avaliar possíveis riscos associados ao uso contínuo do material, especialmente em relação à toxicidade humana e aos ecossistemas aquáticos.

Novas métricas para sistemas agrícolas tropicais

Os cientistas também chamaram atenção para a necessidade de aperfeiçoar os métodos utilizados nas avaliações ambientais da agricultura tropical. Um dos trabalhos analisou a forma como os impactos dos fertilizantes são distribuídos em sistemas de produção que envolvem mais de uma cultura ao longo do ano agrícola.

Utilizando um sistema de soja e algodão em Mato Grosso como exemplo, os pesquisadores demonstraram que diferentes formas de atribuição dos nutrientes podem alterar significativamente os resultados das avaliações ambientais. Como parte dos nutrientes permanece no solo e beneficia culturas subsequentes, métodos simplificados podem não refletir adequadamente a realidade dos sistemas produtivos brasileiros.

A proposta é desenvolver metodologias mais precisas e compatíveis com as características da agricultura tropical, contribuindo para decisões de manejo mais eficientes e sustentáveis.

Solo deve ser considerado nas avaliações ambientais

Outro estudo defendeu a inclusão dos estoques naturais de nutrientes e água presentes no solo nas avaliações de ciclo de vida dos produtos agrícolas.

Segundo os pesquisadores, fatores como fósforo, metais e disponibilidade hídrica costumam ser tratados apenas como condições de fundo nos modelos ambientais. Isso pode gerar interpretações distorcidas, especialmente em áreas que acumulam nutrientes ao longo de vários ciclos produtivos.

Ao incorporar essas informações de forma explícita, as análises tendem a se tornar mais precisas, permitindo comparações mais justas entre diferentes regiões e sistemas produtivos.

Ferramenta mede a pegada de carbono da pecuária brasileira

A pecuária também esteve entre os temas apresentados no encontro internacional. Pesquisadores divulgaram a Calculadora Pecuária de Baixo Carbono, ferramenta desenvolvida para estimar as emissões e remoções de gases de efeito estufa associadas à produção brasileira de carne e leite.

A plataforma combina metodologias do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) com abordagens de avaliação de ciclo de vida, permitindo análises mais completas dos sistemas produtivos.

A expectativa é que a ferramenta contribua para programas nacionais como Carne Baixo Carbono e Leite Baixo Carbono, além de auxiliar produtores, indústrias e formuladores de políticas públicas na identificação de estratégias de mitigação e certificação ambiental.

Inventários fortalecem certificação da carne de baixo carbono

Complementando essa iniciativa, outro estudo apresentou a criação de inventários harmonizados para sistemas de pastagens utilizados na pecuária brasileira.

A metodologia reúne informações científicas, modelagem computacional e validação por especialistas para caracterizar diferentes modelos de produção, incluindo sistemas extensivos, semi-intensivos e intensivos.

Foram elaborados 25 inventários que poderão servir como referência para futuras avaliações ambientais, aumentando a transparência metodológica e fortalecendo programas de certificação de carne de baixo carbono.

Inovação e ciência para um agro mais sustentável

Os trabalhos apresentados em Maastricht reforçam o papel da ciência brasileira na busca por soluções capazes de reduzir emissões e aumentar a eficiência dos sistemas produtivos. Seja por meio de combustíveis renováveis, do reaproveitamento de resíduos industriais, do aperfeiçoamento das métricas ambientais ou do desenvolvimento de ferramentas de monitoramento, as pesquisas demonstram que a inovação pode ser uma aliada estratégica na construção de uma agropecuária mais sustentável e alinhada às metas globais de descarbonização.

Google Notícias
Siga o CenárioMT

Receba em primeira mão nossas notícias, tendências e exclusivas.