A observação da natureza como forma de prever mudanças ambientais é uma prática antiga em diversas regiões do Brasil. Em Quixadá, no Ceará, o profeta da chuva Renato Lino, de 78 anos, afirma ter aprendido com o pai a interpretar sinais deixados por plantas e animais para antecipar períodos de chuva.
Entre os indicadores observados por ele estão o comportamento da catingueira, do angico e da maria-de-barro. Segundo Lino, a análise contínua desses sinais permite identificar padrões climáticos ao longo do tempo.
Agora, pesquisadores pretendem aplicar tecnologia digital e inteligência artificial para ampliar essa capacidade de interpretação. A iniciativa será desenvolvida em Recife e busca compreender o que diferentes organismos vivos revelam sobre as condições ambientais dos locais onde vivem.
O projeto vai monitorar espécies presentes no ambiente urbano e comparar seus comportamentos com os de organismos da mesma espécie localizados em áreas de menor impacto humano. Entre os elementos observados estão os sons emitidos por morcegos, a frequência de abertura e fechamento das conchas das ostras, a transpiração das aroeiras e os padrões de voo das abelhas.
Os dados coletados em Recife serão confrontados com informações obtidas na Reserva Ambiental de Saltinho e na Área de Proteção Ambiental de Guadalupe, ambas localizadas no litoral sul de Pernambuco.
De acordo com o biólogo e pesquisador Artur Maia, do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), cada organismo apresenta respostas metabólicas específicas às condições ambientais. Essas reações podem indicar níveis de adaptação ou de estresse diante de fatores como poluição, calor excessivo e interferência humana.
Um dos exemplos citados pelos pesquisadores envolve as ostras, que tendem a reduzir a frequência de abertura de suas conchas em ambientes adversos, diminuindo a alimentação para evitar a absorção de substâncias nocivas.
Índice de Resiliência Metabólica
A proposta é utilizar essas informações para criar o Índice de Resiliência Metabólica (IRM), uma ferramenta destinada a medir o esforço realizado pelos organismos para sobreviver em determinado ambiente.
O indicador reunirá respostas metabólicas de diferentes espécies e transformará esses dados em uma escala padronizada de 0 a 100, permitindo avaliar o nível de resiliência ambiental de cada local analisado.
Segundo os pesquisadores, a combinação de informações provenientes de abelhas, ostras, árvores e outros organismos poderá fornecer uma leitura mais precisa sobre as condições ambientais de áreas urbanas e naturais.
Batizado de Apeiron, termo de origem grega que significa “ilimitado”, o projeto será conduzido pelo Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR). Os primeiros testes estão previstos para ocorrer até novembro na capital pernambucana.
Os responsáveis pela pesquisa acreditam que os resultados poderão contribuir para o planejamento urbano, considerando a cidade como um sistema vivo e identificando diferenças ambientais entre bairros e regiões. A expectativa é que as informações auxiliem na formulação de políticas voltadas à qualidade ambiental e ao bem-estar da população.
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