Às vésperas do 8 de março, pesquisa revela que 35% das mulheres já sofreram assédio no trabalho

Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, um levantamento recente reforça um problema persistente no ambiente profissional brasileiro: o assédio sexual contra mulheres.

De acordo com a pesquisa Trabalho Sem Assédio 2025, realizada pela Think Eva em parceria com o LinkedIn, 35% das mulheres brasileiras afirmam já ter sofrido assédio sexual no trabalho. O dado indica que mais de uma em cada três profissionais enfrentou esse tipo de violência durante a carreira.

Além do impacto emocional, a consequência profissional também é significativa. Segundo o estudo, uma em cada seis vítimas (16,7%) pede demissão após o episódio, mostrando que o problema pode comprometer diretamente a trajetória profissional e a estabilidade financeira das mulheres.

Impactos na saúde mental das vítimas

Especialistas alertam que o assédio no ambiente corporativo pode provocar efeitos psicológicos duradouros.

A psicóloga e psicanalista Andréa Chicri Matiassi, da Afya Contagem, explica que muitas vítimas enfrentam reações emocionais intensas logo após o ocorrido.

“Para quem é forçada a sair do trabalho, os impactos imediatos podem incluir choque, sensação de injustiça e abalo na autoestima. Em muitos casos surgem sintomas de ansiedade, depressão ou sinais de estresse pós-traumático”, afirma.

Segundo ela, mesmo as mulheres que permanecem na empresa podem sofrer consequências importantes.

“O ambiente passa a ser percebido como um espaço de ameaça constante. A convivência com o agressor ou com uma estrutura que não oferece proteção gera medo, dificuldade de concentração e queda de produtividade”, explica.

Com o tempo, esse cenário pode evoluir para burnout, ansiedade crônica, depressão e sintomas persistentes de trauma.

Mulheres com menor renda são mais vulneráveis

O levantamento também aponta que fatores econômicos e hierárquicos influenciam diretamente na incidência de assédio.

Entre as mulheres que relataram ter sofrido violência sexual no trabalho:

  • Mais de 65% recebem até cinco salários mínimos

  • Apenas 10% têm renda superior a R$ 15 mil

A desigualdade também aparece na posição ocupada dentro das empresas.

  • 45% das vítimas estão em cargos pleno ou sênior

  • 29% são assistentes

  • Apenas 14% ocupam cargos de diretoria ou executivos

Especialistas apontam que profissionais com menor poder hierárquico tendem a ter menos mecanismos de proteção e mais receio de denunciar.

Cultura do silêncio ainda predomina

Mesmo diante da gravidade do problema, o estudo mostra que a maioria das vítimas não formaliza denúncia.

A pesquisa, que ouviu mais de 3 mil profissionais no Brasil, revela que apenas 10% das mulheres que sofreram assédio recorreram aos canais oficiais das empresas.

Para a psicóloga Andréa Matiassi, o baixo número de denúncias está ligado a fatores estruturais e culturais.

“Muitas mulheres temem perder o emprego, sofrer retaliações ou serem vistas como problemáticas. Além disso, sentimentos de vergonha e culpa ainda são comuns, alimentados por uma cultura que frequentemente responsabiliza a vítima”, explica.

Segundo ela, combater o problema exige mais do que incentivar denúncias individuais.

“É necessário transformar as estruturas de poder e a forma como as instituições lidam com a palavra das mulheres”, afirma.

O que diz a lei sobre assédio no trabalho

No Brasil, a legislação estabelece obrigações para empresas na prevenção ao assédio.

A Lei 14.457/2022, conhecida como Programa Emprega + Mulheres, passou a exigir que empresas com CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e de Assédio) adotem medidas específicas para combater esse tipo de violência.

Entre as exigências estão:

  • criação de canais de denúncia acessíveis

  • garantia de anonimato quando solicitado

  • investigação imparcial das denúncias

  • aplicação de medidas disciplinares quando a conduta é confirmada

  • treinamentos periódicos sobre prevenção ao assédio

O advogado e professor de Direito Igor Alves Noberto Soares, da Afya Sete Lagoas, explica que a omissão da empresa pode gerar consequências jurídicas.

“Quando o empregador ignora denúncias, deixa de investigar ou permite retaliações contra a vítima, pode ser responsabilizado judicialmente”, afirma.

Segundo ele, as empresas podem enfrentar ações trabalhistas, multas administrativas e pagamento de indenizações, tanto individuais quanto coletivas.

Debate ganha força no Dia da Mulher

Com a chegada do 8 de março, especialistas reforçam que campanhas e homenagens devem ser acompanhadas de ações concretas dentro das empresas.

Medidas de prevenção, canais de denúncia eficazes e políticas de proteção às vítimas são consideradas fundamentais para enfrentar o problema e promover ambientes de trabalho mais seguros.

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