PF aponta que Comando Vermelho controla garimpo ilegal na TI Sararé para financiar armas e drogas

Investigação da Polícia Federal aponta que facção criminosa assumiu áreas de garimpo ilegal na Terra Indígena Sararé e utilizava o ouro para financiar tráfico e compra de armas.

A infiltração de organizações faccionadas em cadeias extrativistas minerais, a conversão de ativos ambientais em moedas de troca para o narcotráfico transnacional e a articulação de forças federais e estaduais de repressão qualificada pautaram um novo relatório de inteligência no oeste do estado. Investigações conduzidas pela Polícia Federal (PF) confirmaram que a facção criminosa Comando Vermelho (CV) assumiu o controle hegemônico do Garimpo Cururu, um dos principais enclaves de extração ilegal de ouro incrustados na Terra Indígena Sararé.

De acordo com as matrizes de rastreamento da corporação, a organização criminosa converteu o minério extraído clandestinamente em um mecanismo financeiro de alta liquidez para capitalizar o tráfico de entorpecentes de fronteira e a importação de armamentos de grosso calibre.

Facção iniciou atuação como segurança armada e hoje domina túneis de extração

Os relatórios de inteligência da Polícia Federal apontam que a capilarização do Comando Vermelho no território indígena iniciou-se de forma gradativa no ano de 2023. Sob a roupagem de prestadores de serviços de segurança armada e escolta, os faccionados cobravam pedágios e taxas de proteção de garimpeiros e investidores que operavam maquinários na região. Com o fortalecimento logístico do grupo, os criminosos subjugaram os antigos operadores e assumiram o controle direto das frentes de lavra.

Para sustentar o domínio territorial contra investidas do Estado e de grupos rivais, os integrantes da facção passaram a utilizar a complexa geografia dos túneis escavados para o garimpo de barranco como depósitos subterrâneos e paióis clandestinos. Nesses locais, eram ocultados fuzis, submetralhadoras, munições de uso restrito e explosivos de alta potência. A estrutura armada servia ainda para impor um regime de terror contra as comunidades indígenas locais e para realizar a escolta armada de retroescavadeiras e insumos químicos nas rotas de acesso clandestinas.

Força-tarefa federal confisca 153 kg de ouro e causa prejuízo de R$ 110 milhões

Como resposta ao avanço do crime organizado sobre o território tradicional do povo Nambikwara, uma força-tarefa de grande escala foi instituída sob a coordenação da Casa Civil da Presidência da República, integrando agências federais e ambientais. Desde o mês de março, as incursões aéreas e terrestres na Terra Indígena Sararé resultaram na desarticulação de complexos logísticos e na prisão em flagrante de 72 indivíduos vinculados à engrenagem ilícita.

O inventário de bens apreendidos, inutilizados ou destruídos pelas forças de segurança durante as sucessivas incursões na TI Sararé engloba os seguintes volumes:

  • Ativos e Minerais: Apreensão de 153 quilos de ouro em barras ou pepitas brutas e mais de 42 mil litros de combustível tipo óleo diesel;
  • Equipamentos de Engenharia: Destruição mecânica e por queima controlada de 31 escavadeiras hidráulicas de alto valor patrimonial e mais de 800 motores estacionários;
  • Infraestrutura de Apoio: Demolição técnica de cerca de 200 acampamentos logísticos, destruição de 33 túneis subterrâneos e detonação de quase quatro toneladas de explosivos comerciais;
  • Impacto Financeiro: Contabilidade oficial estima que o somatório de perdas de capital impostas às lideranças da facção ultrapassa a cifra de R$ 110 milhões.

O delegado da Polícia Federal, Rodrigo Vitorino, sublinhou que a dinâmica de escoamento do minério funcionava como um hub financeiro internacional. O ouro extraído criminosamente da terra indígena era lavado e inserido no mercado financeiro formal ou exportado ilegalmente para países vizinhos produtores de cocaína, servindo como substituto direto do papel-moeda na aquisição de carregamentos de drogas e fuzis.

Os eixos da intervenção federal, os indicadores de danos ecológicos e o plano de contenção permanente ficaram tabelados na seguinte matriz analítica:

Frente de Investigação / Impacto Métricas Oficiais e Insumos de Campo Estratégia de Resposta do Estado em MT
Controle do Crime Organizado Comando Vermelho domina o Garimpo Cururu desde 2023. Uso do ouro como ativo financeiro para tráfico internacional e armas.
Balanço Repressivo Federal 72 prisões e mais de R$ 110 milhões em perdas estruturais. Destruição de 31 escavadeiras e apreensão de 153 kg de ouro.
Degradação Ambiental Uso intensivo de mercúrio metálico e cianeto em calhas hídricas. Contaminação sistemática de rios e destruição de lençóis freáticos.
Cinturão de Segurança Construção de base integrada nos eixos de acesso à TI. Articulação de forças estaduais de MT com agências da União.

Uso de mercúrio e cianeto contamina rios e ameaça o lençol freático

Além das ramificações criminais e da violência armada contra os povos originários, os cadernos técnicos da força-tarefa catalogaram graves episódios de contaminação e passivos ambientais irreversíveis na bacia hidrográfica da região. A utilização sem controle de compostos químicos altamente nocivos, como o cianeto e o mercúrio metálico na etapa de amalgamação do ouro, provocou o assoreamento de cursos d’água e a intoxicação sistemática da fauna aquática, comprometendo a segurança alimentar e a saúde dos indígenas Nambikwara.

Para estancar o fluxo de reentrada de maquinários e estrangular a logística de abastecimento de combustíveis e suprimentos das facções, o Governo de Mato Grosso anunciou a execução de obras de engenharia civil para erguer uma base policial fixa em um dos eixos rodoviários estratégicos que dão acesso à Terra Indígena Sararé. A estrutura operará como um posto avançado de controle aduaneiro e triagem, permitindo que as forças especiais da Polícia Militar e Polícia Civil estaduais mantenham uma vigilância em tempo real e de caráter permanente, operando em perfeita simetria com as decisões judiciais e os órgãos federais de proteção em Mato Grosso.

Reportagem baseada nos inquéritos civis e criminais da Polícia Federal (DPF), balanços de apreensões da força-tarefa da Casa Civil da Presidência da República e relatórios ambientais de impacto químico em terras indígenas.

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