Alvo da Operação Gomorra, prefeito de Campo Verde assina compra com superfaturamento de até 563%

Em meio a escândalo de R$ 29 milhões por desvios apurados pelo Naco, gestão de Alexandre Lopes autoriza aquisição de difusores de aroma e caixas de luz por valores inflados para a Educação

No centro de um dos maiores escândalos políticos recentes de Mato Grosso, o prefeito de Campo Verde, carimbou uma nova aquisição de materiais com indícios severos de sobrepreço.

Sob o pretexto de equipar salas multissensoriais da rede pública de ensino, a prefeitura fechou um contrato de R$ 1.563.254,34 com uma empresa. A liberação do montante total está travada no orçamento de 2026 da Secretaria Municipal de Educação e depende da entrega dos itens, cujo prazo final expira na próxima quinta-feira (16).

A compra ocorre no exato momento em que o chefe do Executivo enfrenta os desdobramentos da segunda fase da Operação Gomorra, que apura um esquema de desvios e fraudes contratuais na prefeitura. Um pente-fino nos itens licitados revela distorções brutais quando comparados aos preços praticados no varejo nacional:

  • Difusor de Aromas Elétrico (500 ml): A prefeitura vai pagar R$ 694,06 por unidade de um modelo com controle remoto e temporizador. No comércio eletrônico e no varejo tradicional, aparelhos com as mesmíssimas especificações oscilam entre R$ 42,00 e R$ 105,00 — uma diferença que chega a 563% em relação ao teto do mercado.

  • Caixa de Luz Escrevível: O município autorizou a compra de 10 unidades pelo valor astronômico de R$ 6.793,55 cada. Uma estrutura idêntica em madeira, acrílico translúcido e iluminação LED RGB é vendida comercialmente por cerca de R$ 1.044,90.

  • Aparelho de Ruído Branco: O gerador de som com saída USB sairá por R$ 580,10 por unidade para os cofres públicos, enquanto opções similares no mercado variam de R$ 72,90 a R$ 119,87.

  • Kit de Discos Sensoriais de Silicone: Cotado a R$ 1.620,00 na licitação da prefeitura, possui equivalentes no mercado nacional vendidos por valores entre R$ 99,90 e R$ 297,99.

Além do apagão nos preços, a transparência do processo é questionável: das 43 mercadorias listadas no documento oficial, 34 foram registradas eletronicamente apenas sob a alcunha genérica de “Marca Própria”, ocultando o fabricante real ou o modelo dos eletrônicos adquiridos.

🔍 O Raio-X da Operação Gomorra e o “Modus Operandi”

As novas suspeitas jogam mais lenha na fogueira das investigações conduzidas pelo Núcleo de Ações de Competência Originária Criminal (Naco). Conforme despacho do desembargador Jorge Luiz Tadeu Rodrigues, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), o prefeito teria se aproveitado diretamente da cadeira do Executivo para blindar e assinar quatro contratos viciados (nº 091/2024, 010/2024, 006/2024 e 113/2024) que ultrapassam a cifra de R$ 29 milhões.

O foco principal do Naco está no desvio de quase 70 mil litros de combustível para veículos particulares sem qualquer vínculo com a administração pública, além do pagamento de aluguéis de frotas de veículos fantasmas (inexistentes) e a quitação de despesas de manutenção em bens alheios ao patrimônio municipal.

Para robustecer as provas de má-fé e corrupção sistêmica, o Tribunal de Justiça decretou a quebra do sigilo fiscal. O magistrado destacou que a extração e a análise pericial dos dispositivos eletrônicos e celulares apreendidos com os suspeitos serão a peça-chave para fechar o cerco contra a cúpula do governo municipal.

O prefeito de Campo Verde, Alexandre Lopes (União), usou suas redes sociais na última quarta-feira (8) para apresentar sua versão sobre os desdobramentos da segunda fase da Operação Gomorra. No pronunciamento gravado em vídeo — o primeiro manifesto público feito oito dias após a deflagração da operação do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) —, o gestor negou qualquer participação no esquema e assegurou que a investigação criminal só existe porque a sua própria administração identificou o rombo e acionou as autoridades.

Lopes alegou que decidiu falar publicamente em respeito aos munícipes e criticou a cobertura midiática do caso. Segundo o prefeito, a maior parte das informações veiculadas omitiu o fato de que o estopim das investigações foi um relatório técnico produzido pela Controladoria Interna do Município.

📄 Defesa alega que o próprio município entregou o relatório ao MP

De acordo com o depoimento do chefe do Executivo, a varredura nos contratos de gestão de frota e fornecimento de combustível começou há mais de um ano por ordem direta de seu gabinete. Após o encerramento do pente-fino da Controladoria, o documento com os indícios de fraude teria sido protocolado voluntariamente junto ao Ministério Público para a abertura de providências criminais.

O prefeito também usou o pronunciamento para contextualizar a modernização do setor de transportes da cidade e justificar o rombo contábil:

  • Fim do papel de bloco: Alexandre afirmou que, antes de assumir o Palácio Municipal, o controle de abastecimento da frota era feito de forma manual, usando blocos de papel suscetíveis a fraudes.

  • Déficit histórico: O prefeito defendeu que sua gestão implantou um sistema informatizado e que, ao cruzar dados com anos anteriores, descobriu um sumiço de combustível que vinha se arrastando e se acumulando na prefeitura “ao longo de décadas”.

  • Respaldo jurídico: Sobre as quatro assinaturas contratuais que o colocam na mira do Núcleo de Ações de Competência Originária Criminal (Naco), Lopes argumentou que apenas assinou a “carona” de uma ata de registro de preços que contava com o aval e parecer favorável da Procuradoria Jurídica do Município — acrescentando que mais de 100 prefeituras de Mato Grosso utilizaram a mesma ata.

“Foi a nossa gestão que identificou os indícios, determinou a auditoria, encaminhou o relatório aos órgãos de controle e adotou providências administrativas. Por que eu seria investigado por isso?”, questionou o prefeito durante o vídeo.

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