A 14ª edição do Festival Literário Internacional de Araxá (Fliaraxá) tem início nesta quinta-feira (14), na cidade mineira de Araxá, no Alto Paranaíba, trazendo a literatura como eixo central de debates sobre identidade e pertencimento. O evento é inspirado no pensamento do geógrafo Milton Santos, cujo centenário foi celebrado no último dia 3 de maio.
Com o tema “Meu lugar no mundo”, o festival parte da ideia de que a compreensão da realidade depende do ponto de vista de cada indivíduo. A proposta é discutir como os diferentes espaços físicos, culturais e simbólicos influenciam a forma como as pessoas interpretam o mundo e constroem suas narrativas.
O pensamento de Milton Santos orienta a programação desta edição ao defender que o mundo não é percebido de forma neutra ou única, mas a partir de experiências situadas. A reflexão amplia o debate para além da geografia e alcança também a literatura, a cultura e a produção de imaginários sociais.
Segundo Nina Santos, neta do geógrafo, a obra do avô contribui para a criação de novas formas de pensar a realidade. Ela destaca que o autor propõe a ideia de que o mundo não se limita ao que já existe, mas também ao que pode vir a existir, o que dialoga diretamente com a literatura e sua capacidade de imaginar novos futuros.
Trajetória e visão de mundo
Nascido na Bahia, na região da Chapada Diamantina, Milton Santos construiu uma trajetória internacional, com passagens por países como França, Estados Unidos, Japão e Tanzânia. Também viveu em cidades como Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, experiências que, segundo familiares e estudiosos, ampliaram sua compreensão sobre as múltiplas formas de enxergar o mundo.
Essa vivência em diferentes contextos reforçou a ideia de que não existem centros únicos de referência global. Para ele, qualquer lugar pode ser ponto de partida para a leitura da realidade, rompendo com a noção de que cidades como Nova York, Paris ou São Paulo concentram toda a produção de conhecimento e influência.
José Eduardo Agualusa entre os homenageados
Entre os homenageados desta edição está o escritor angolano José Eduardo Agualusa, autor de obras como O vendedor de passados e A teoria geral do esquecimento. No festival, ele apresenta seu novo livro, Tudo sobre Deus, que aborda temas como existência, finitude e reflexão interior.
O autor explica que a obra nasceu de um período de dificuldade pessoal e combina narrativa em prosa com elementos poéticos. A história acompanha um personagem que, ao descobrir uma doença grave, decide se isolar e registrar suas reflexões em um diário, explorando a relação entre vida, memória e escrita.
Agualusa também destaca o papel dos leitores na construção do sentido das obras literárias. Para ele, os livros ganham vida a partir da leitura e se transformam conforme a interpretação de cada pessoa, tornando a literatura um espaço de diálogo permanente.
O escritor revisita ainda a obra Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, ressaltando a força criativa da linguagem e a capacidade da literatura de construir universos próprios, nos quais o leitor é convidado a mergulhar em novas formas de percepção.
Programação e encerramento
O Fliaraxá segue até o domingo (17) e reúne nomes como Alexandre Coimbra Amaral, Bianca Santana, Djonga, Geni Núñez, Gustavo Ziller, Leila Ferreira e Marcelino Freire. A curadoria do festival é assinada por Sérgio Abranches, Afonso Borges, Rafael Nolli e Carlos Vinícius.
Além das mesas literárias, a programação inclui prêmio de redação e desenho para estudantes do ensino fundamental, médio e EJA, além de uma exposição fotográfica produzida a partir de câmeras analógicas utilizadas por jovens participantes.
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