Documentos inéditos ligados à ditadura militar brasileira são o ponto central do documentário Bandidos de Farda, que estreia neste domingo (17). A produção é coordenada pela jornalista investigativa Juliana Dal Piva e reúne registros históricos atribuídos ao coronel Cyro Guedes Etchegoyen, um dos principais integrantes da inteligência do Exército durante o regime.
O material analisado inclui relatórios secretos, registros de espionagem política, manuais de interrogatório e documentos sobre treinamentos realizados por oficiais brasileiros no exterior. Segundo a investigação, os arquivos apontam para a existência de uma estrutura organizada de repressão, com práticas de perseguição política, desaparecimentos forçados e violência de Estado.
Entre os documentos apresentados estão registros relacionados a cursos de tortura e interrogatório, além de informações sobre vítimas ainda não reconhecidas oficialmente pelo Estado brasileiro.
Um dos focos da investigação é a atuação do coronel Cyro Etchegoyen, que chefiou a contrainformação do Centro de Informações do Exército (CIE) entre 1969 e 1974. Pesquisadores citados no documentário afirmam que ele participou da consolidação de métodos clandestinos de repressão utilizados pelos órgãos de inteligência da época.
O militar também é apontado em estudos históricos como um dos articuladores da chamada “Casa da Morte”, centro clandestino de tortura instalado em Petrópolis, no Rio de Janeiro. O local ficou conhecido por receber presos políticos submetidos a violência física e psicológica, além de casos de desaparecimento forçado.
Segundo a produção, parte das operações de repressão envolvia não apenas militares oficiais, mas também agentes clandestinos treinados para atuar em ações de perseguição política.
A investigação conduzida por Juliana Dal Piva ganhou repercussão internacional após manifestações do relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para Verdade, Justiça, Reparação e Garantias de Não Repetição, Bernard Duhaime. O representante afirmou que as revelações podem justificar a reabertura de investigações sobre crimes cometidos durante a ditadura militar.
Em entrevista à Agência Brasil, Juliana Dal Piva afirmou que os documentos revelam a existência de uma estrutura organizada para a prática de crimes de Estado. Segundo ela, os registros mostram a atuação de agentes preparados para operações clandestinas envolvendo tortura, assassinatos e ocultação de corpos.
O documentário também aborda relatos de violência sexual praticada durante o período. De acordo com a jornalista, um caso de estupro identificado nos documentos reforça como a violência sexual era utilizada como instrumento de terror e humilhação contra vítimas da repressão.
Especialistas e defensores dos direitos humanos avaliam que os arquivos atribuídos a Cyro Etchegoyen podem contribuir para novas investigações históricas e jurídicas sobre violações ocorridas durante o regime militar.
Juliana Dal Piva trabalha há cerca de 15 anos com investigações sobre a ditadura militar. A jornalista também é autora do livro Crime Sem Castigo: Como os Militares Mataram Rubens Paiva, lançado em 2025.
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