Chuvas em Juiz de Fora expõem falhas no sistema de alerta e deixam mais de 60 mortos

Sobreviventes e especialistas apontam falhas na comunicação de risco após temporais históricos que devastaram áreas da cidade e deixaram milhares de desabrigados.

As fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, já deixaram mais de 60 mortos e milhares de pessoas desalojadas ou desabrigadas, configurando um dos eventos climáticos mais extremos da história do município. Sobreviventes e especialistas defendem a implementação de um plano mais eficiente de evacuação e orientação à população para reduzir o número de vítimas em situações semelhantes.

Uma das áreas mais afetadas foi o bairro Jardim Parque Burnier, na zona leste, onde mais de 20 pessoas morreram após deslizamentos de terra. Cercada por encostas e com histórico de instabilidade, a região registrou ainda o resgate de mais de dez moradores sob os escombros.

Moradores que escaparam com vida afirmam que não receberam alertas prévios. O pedreiro Danilo Frates relatou que só percebeu a gravidade da situação ao sair de casa e observar a poeira provocada pelos deslizamentos, mesmo durante a chuva. Para ele, a emissão de avisos antecipados, incluindo sirenes ou orientações presenciais, poderia ter evitado mortes.

Especialistas da Universidade Federal de Juiz de Fora avaliam que, embora o município possua mapa de risco e estrutura de monitoramento, é necessário aprimorar a comunicação e a preparação da população, com rotas de fuga definidas e indicação de abrigos públicos. Segundo o professor Miguel Felippe, é essencial um plano de contingência claro e ações educativas diretamente nas comunidades.

O professor Jordan de Souza destaca que os sistemas de alerta são tão importantes quanto as obras de engenharia. De acordo com ele, o volume de precipitação superou a capacidade das estruturas existentes, enquanto intervenções de contenção ainda estão em fase de contratação ou execução. Em áreas de alto risco, a realocação de moradores pode ser a única solução viável.

A prefeitura informa que mantém um sistema de alertas por mensagens de celular e que, devido às características do relevo, sirenes sonoras não são consideradas adequadas. A administração também aponta que parte da população resiste a deixar as residências por apego ao imóvel ou por falta de alternativas imediatas.

Juiz de Fora é considerada a nona cidade do país com maior risco de desastres geológicos. Nos casos de interdição, o município oferece auxílio-moradia, cujo valor foi ampliado para R$ 1,2 mil. Atualmente, 446 famílias recebem o benefício, e novas unidades habitacionais estão em construção por meio do programa federal Minha Casa, Minha Vida.

Segundo a prefeitura, mais de R$ 500 milhões estão destinados a obras de contenção de encostas e drenagem, com recursos federais. Entre os projetos está a construção de um pôlder no bairro Industrial, sistema que isola áreas inundáveis e utiliza bombas para retirada gradual da água.

Dados da UFJF indicam que o acumulado de 749 milímetros de chuva até 25 de fevereiro é o maior registrado nos últimos 30 anos. Especialistas alertam que a tragédia evidencia não apenas a intensidade do evento climático, mas também desafios estruturais relacionados à ocupação de áreas vulneráveis e à desigualdade no acesso à moradia segura.

Google Notícias
Siga o CenárioMT

Receba em primeira mão nossas notícias, tendências e exclusivas.