Estudo revela que 45% dos produtores rurais de Mato Grosso já são inovadores, mas digitalização ainda limita avanço no campo

Levantamento do AgriHub, realizado em parceria com o Senar MT, aponta evolução na adoção de tecnologias, identifica cinco perfis de produtores e destaca a conectividade como principal gargalo para acelerar a inovação no agro

A inovação já faz parte da realidade de boa parte do agronegócio mato-grossense. No entanto, transformar tecnologia em uma prática ainda mais presente nas propriedades rurais depende da superação de um desafio que continua atravessando o campo: a digitalização.

É o que mostra a segunda edição do Relatório de Perfil de Inovação do Produtor Rural de Mato Grosso, lançada nesta quinta-feira (25) pelo AgriHub em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso (Senar MT). O estudo apresenta um retrato atualizado sobre a maturidade tecnológica dos produtores do estado e indica que quase metade deles já possui perfil inovador, embora as limitações de conectividade ainda retardem esse avanço.

O levantamento foi construído a partir da análise de mais de 82 mil pontos de dados coletados junto a 1.403 produtores rurais distribuídos em 75 municípios mato-grossenses, consolidando um dos diagnósticos mais abrangentes já realizados sobre inovação no agro estadual.

Produtor quer inovar, mas infraestrutura ainda é obstáculo

Para medir o grau de inovação das propriedades, o AgriHub desenvolveu uma metodologia baseada em três pilares: Digitalização, que avalia o acesso à internet, conectividade e utilização de ferramentas de gestão; Adoção de Tecnologias, que mede a disposição dos produtores para testar novas soluções; e Influência, relacionada à participação em sindicatos, cooperativas e redes de relacionamento.

Os resultados mostram que 45% dos produtores já podem ser classificados como inovadores ou altamente inovadores. Entretanto, o Índice de Digitalização alcançou apenas 28 pontos, desempenho inferior aos indicadores de Influência (41) e Adoção de Tecnologias (40).

Na prática, isso significa que o produtor rural demonstra interesse em inovar e reconhece os benefícios da tecnologia, mas ainda enfrenta dificuldades relacionadas principalmente ao acesso à internet de qualidade e às ferramentas digitais que permitem acelerar a transformação tecnológica no campo.

Segundo a gerente do AgriHub, Érika Segóvia, o estudo ajuda a desconstruir uma percepção comum sobre o comportamento do produtor rural.

“Durante muito tempo acreditou-se que o principal desafio da inovação era convencer o produtor rural a adotar novas tecnologias. Os dados mostram justamente o contrário. O produtor reconhece o valor da inovação. O nosso desafio agora é criar as condições para que ela aconteça de forma mais rápida, segura e acessível”, destaca.

Ela explica que compreender o perfil de cada produtor permite desenvolver políticas, programas e soluções mais alinhadas às necessidades reais de quem está no campo.

Cinco perfis revelam diferentes estágios de inovação

O relatório também identifica cinco perfis de produtores rurais conforme o grau de maturidade tecnológica.

O grupo mais numeroso é formado pelos Conservadores, que representam 39,4% dos entrevistados. São produtores que valorizam a inovação, mas preferem investir apenas em tecnologias já consolidadas e com resultados comprovados.

Na sequência aparecem os Pragmáticos, com 31% da amostra. Esse perfil prioriza ferramentas que gerem ganhos imediatos de produtividade, redução de custos e maior eficiência operacional.

Os Céticos correspondem a 18,1% dos participantes e apresentam maior resistência à inovação, geralmente em razão de dificuldades de infraestrutura e conectividade.

Já os Visionários, que representam 9,1% do total, costumam antecipar tendências, testar soluções inovadoras e influenciar outros produtores em suas regiões.

Na ponta mais avançada estão os Entusiastas, que somam apenas 2,4% dos entrevistados. Trata-se de produtores altamente digitalizados, que utilizam tecnologias avançadas, participam do desenvolvimento de novas soluções e transformam suas propriedades em ambientes permanentes de experimentação.

Inovação ocorre de forma desigual entre as regiões

O estudo também revela que a inovação está distribuída de maneira heterogênea em Mato Grosso.

A Região III aparece como a mais inovadora do estado, concentrando maior número de produtores classificados como Visionários e Entusiastas. Segundo o levantamento, essa característica está associada à presença de propriedades de maior porte e produtores com níveis mais elevados de escolaridade.

As regiões V e IX também apresentaram forte participação de produtores inovadores.

Em sentido oposto, a Região I registrou predominância de produtores classificados como Céticos, cenário atribuído principalmente às limitações de infraestrutura digital. Já a Região VI concentra maior número de produtores Conservadores, além de possuir predominância de pequenas propriedades rurais.

Entre os municípios com maiores índices de inovação destacam-se Primavera do Leste, Guiratinga, Bom Jesus do Araguaia e Sorriso.

Mulheres e pequenas propriedades ganham destaque

Além de mapear o comportamento dos produtores diante da inovação, o levantamento também traça o perfil dos participantes.

Os dados mostram que 59% possuem propriedades com menos de 50 hectares. Em relação às atividades desenvolvidas, metade atua na pecuária, 34% na agricultura e 16% trabalham com sistemas integrados de produção agropecuária.

Outro dado que chama atenção é a crescente participação feminina. Aproximadamente um terço dos entrevistados são mulheres produtoras rurais, reforçando o protagonismo cada vez maior delas na gestão das propriedades e na adoção de novas tecnologias.

Diagnóstico orienta o futuro da transformação digital

Mais do que apresentar indicadores, o relatório pretende servir como ferramenta para orientar políticas públicas, programas de capacitação e estratégias voltadas ao fortalecimento da inovação no campo.

Ao identificar os diferentes níveis de maturidade tecnológica e os principais obstáculos enfrentados pelos produtores, o AgriHub busca contribuir para que empresas, instituições de pesquisa, entidades do setor e o poder público desenvolvam soluções mais aderentes à realidade do agro mato-grossense.

O diagnóstico reforça que Mato Grosso já possui uma base sólida de produtores dispostos a inovar. O próximo passo será ampliar a conectividade, democratizar o acesso às tecnologias digitais e criar um ambiente cada vez mais favorável para que a transformação digital alcance todas as regiões do estado.

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